Resgatando uma amizade: até onde ir?

 

Como vocês sabem eu já vivenciei inúmeras decepções no quesito amizade em minha vida. E, sinceramente, acho que todos aqueles que se doam aos vínculos que criam com o outro acabam uma hora ou outra passando por isto também.

Hoje quero falar de duas situações de resgate de amizades desfeitas que passei nos últimos tempos. Uma delas se tratava da minha primeira “amiga”, conheci aos nove anos de idade e fomos amigas-irmãs até os dezoito anos. A outra conheci no ambiente de trabalho há pouco mais de quatro anos, onde nos reencontramos depois de já termos passado por outra empresa onde só nos víamos de longe e não atuamos juntas.

Primeira história: A “amiga-irmã”.

Bom, eu como filha única nunca tinha tido uma amiga de verdade que convivesse em minha casa, que compartilhássemos nossos dias, e, então, quando a conheci assumi realmente a ideia de que havia ganhado uma irmã.

Estudamos juntas da quinta série do ensino fundamental até o pré-vestibular. Fase na qual ela começou a se distanciar de mim e eu bem lerda não percebia que estava sendo colocada para escanteio. Até que entramos na mesma faculdade, graças a minha mãe que havia pesquisado uma instituição na qual pudéssemos pagar e tivesse algum curso que nos interessava, onde ficou mais do que evidente para mim que eu já tinha sido descartada de vez.

Eu me lembro até hoje da cena: chegado o dia da primeira aula na faculdade, eu fui até a casa dela para irmos juntas estudar (como fazíamos desde a quinta série) e a avó dela me disse que ela não estava e já tinha ido. Opa! Primeiro susto! Segui rumo a faculdade. Só havia uma linha de ônibus que nos levasse de nossa cidade até a faculdade e os horários eram rotineiros, eis que ao parar em um ponto de ônibus a vejo entrando, sorri e pensei que ela sentaria ao meu lado – segundo susto – ela se sentou em outro banco e se quer me olhou. Descemos no ponto da faculdade, fomos conferir qual seria a nossa sala, eu segui para a sala e ela sumiu. Chegou o horário de início da aula e ela entrou, sentou em outra mesa e atuava como se nunca tivesse me visto.

Assim foi a aula inteira. Assim foi a volta para casa no mesmo ônibus. Assim foi a primeira semana inteira de aula. Eu me sentindo a pessoa mais rejeitada do universo e com vontade de chorar falei com a minha mãe que mudaria de turno.

Então, aos dezoito anos eu perdia a minha “irmã” sem entender absolutamente nada.

Confesso que a sensação de me sentir renegada e desprezada me fizeram não querer nem conversar com ela. Mudei de turno.

Após uns dois anos ela me vê na faculdade e vem conversar comigo pedindo para retornar a amizade e esquecer as “bobeiras dela”. Eu ainda muito magoada disse que tudo bem, mas não fiz nenhum esforço para retomar a amizade. Nós continuávamos estudando em turnos distintos e quase nunca nos víamos.

Alguns anos mais tarde resolvi que conversaria com ela, agendei um encontro em um shopping e fui com outras duas amigas em comum. (Uma dessas amigas fez uma das traições mais baixas que eu já sofri, mas isso é história para outro texto) Elas ficaram passeando no shopping enquanto eu conversava com a minha “ex-amiga-irmã”, onde percebi que era uma outra pessoa que estava em minha frente: fria, arrogante, distante e totalmente indiferente a mim. Não voltamos a nos falar.

Passados mais alguns anos, eu encontro o noivo dela no trem e faço um bilhete pedindo desculpas pela minha resistência e por não ter me esforçado em retomar a amizade, digo o meu e-mail (porque só nessa época que tive acesso a e-mail, celular e internet..rs…sou velhinha gente) e digo que se ela quiser conversar eu estava disposta.

Um dia recebo um e-mail dela dizendo que topa me encontrar para conversarmos. Eu digo que estou marcando um lanche com uns amigos do tempo do ensino médio e se ela quiser vir seria ótimo. Ela vem. Nós quatros conversamos, rimos, brincamos como nos velhos tempos (mas há sempre uma névoa entre nós duas que eu insisto em ignorar).

Ela se casa. Me convida para conhecer sua casa. Eu a chamo para almoçar em minha casa. Nessa altura ambas já casadas e morando em sua própria casa vamos nos falando amistosamente, eu achando que os velhos tempos voltaram, ela sempre relutante a se abrir de verdade e se mantém no seu pedestal.

Passado um tempo, o marido dela comenta sobre uma oportunidade de trabalho que abre anualmente diversas vagas em sua empresa e me diz se não tenho interesse, digo que sim e peço as coordenadas de como devo proceder (com mais de um mês de antecedência do prazo final), ele responde faltando algumas horas para terminar o processo, eu moro em outra cidade e não consigo me inscrever.

Ela liga para mim depois de uma semana contando que se inscreveu e pergunta se eu fiz, digo que não, não deu tempo. Ela lamenta. Eu aguardo um ano para tentar de novo. Me inscrevo e passo. Desde então a gente já havia se distanciado de novo.

Encontro no trabalho o marido dela. Passado um dia eu descubro que ela me excluiu de todas as redes sociais. Após alguns meses encontro os dois na rua e somente ele me cumprimenta, ela vira o rosto. Eu e meu marido não entendemos nada. Passado mais um ano a encontro em um curso, novamente ela vira o rosto e faz como se não me conhecesse. E assim reage sempre que nos esbarramos pelas ruas desde então.

Moral da primeira história: acredito que nunca deveria ter tentando retomar essa amizade porque, na realidade, ela talvez nunca tenha existido.

 

Segunda história: A amiga do trabalho.

Quando nos encontramos na segunda empresa e passamos a atuar juntas no mesmo projeto eu descobri que tínhamos muita afinidade e interesses em comum.

As nossas conversas eram sempre ricas, falando de vários assuntos de forma consistente, compartilhamos momentos de alegria e tristeza no trabalho, ela foi demitida, eu pedi demissão, continuávamos sempre nos falando e sempre foi muito bom tê-la como amiga.

Um dia, do nada, percebo que fui excluída de todas as redes sociais e bloqueada. Envio um e-mail perguntando o que houve, nada. Envio o segundo, nada. Aceito. Sigo a vida com as boas lembranças das nossas conversas e com a tristeza de mais uma decepção.

Esse ano recebo o e-mail dela pedindo desculpas, reconhecendo que não teve uma atitude bacana e lamentando que tenha terminado a nossa amizade.

Eu, calejada de tanta decepção e com medo de arriscar retomar o contato à toa e sair mais frustrada ainda demoro a responder. Converso com minha mãe (que a conhece também) e ela me orienta a dar uma nova chance SE for isso que o meu coração estiver pedindo, digo que sim, que sinto falta dela e gostaria de voltar a nossa amizade.

Respondo bem cautelosa e distante. Esse não é o meu jeito, fico incomodada com minha resposta, envio outro e-mail e a convido para um café. Marcamos. Desmarco. Marcamos outro. Eu com medo vou ao encontro. Ela se atrasa quase uma hora, sinto que ficarei no vácuo. Ela chega. Nos abraçamos. Almoçamos. Conversamos sobre amenidades a priori e logo estamos tendo as nossas boas, consistentes e velhas conversas inteligentes sobre nós, a vida, a sociedade, literatura e tantos outros assuntos que faz fluir a nossa conexão e quando olho para o relógio já é quase noite e precisamos ir embora por conta da violência da cidade.

Fico muito feliz por tê-la novamente em minha vida. Triste por não poder ajudá-la mais como gostaria.

Moral da segunda história: devemos ter mais cautela quando retomamos uma amizade e não mergulhar de cabeça. Ouvir o nosso coração sem perder a razão pode ser o melhor caminho.

Então, para você que anda querendo retomar a sua amizade com alguém, pense na falta que ter essa relação na sua vida lhe custa: você acredita que seria mais feliz se a tivesse de volta? Se sente capaz de reconstruir a confiança? Se sim, vá em frente. Arrisque. Mas, não dê um mergulho muito fundo, vá com calma, observe bem como a outra pessoa está vindo – junto ou mantendo uma distância segura – e, se perceber que estão lado a lado, siga adiante e não se arrependa de nem ter tentado.

Luz em nossa caminhada, que saibamos crescer como cada ida e vinda.

4 comentários

  1. ROSEMERI GARCIA

    Adoro quando recebo alguma mensagem, acabo sempre lendo todas.
    Acho seus textos divinos e com muita consistência. Esses de retomar amizades me fez viajar. me senti a própria.
    Mas já esta resolvido, seguiremos por caminhos diferentes.

    • Oi Rosemeri,

      Fiquei muito feliz com o seu comentário. Continue sempre por aqui =)

      Beijos

  2. Dinah Dantas

    As vezes quem rechaça uma amizade, são os mais carentes, deixam o orgulho falar mais alto. Pessoa muito sentimental, de baixa auto estima, se faz difícil para começar/reatar amizades.

E então, gostou? Me diga aqui no comentário.

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