Laços de Família

Caixa de lembranças – Parte I

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Quando eu era criança aprendi que praticamente todo mundo tinha um bilhetinho, uma cartinha, um cartão de aniversário ou de natal guardado em alguma caixinha ou no fundo de alguma gaveta. Aprendi isso com meus avós.

A vovó tinha guardado em uma de suas gavetas, com cheirinho de sabonete alma de flores, alguns papéis e um lencinho com o desenho da fragata que o vovô havia viajado pela Marinha mundo afora. Já vovô não tinha uma caixinha, mas sim um imponente baú, feito em madeira, de forma retangular, com duas grandes divisões, que guardavam suas recordações, pedaços da sua história de vida.

Lembro-me de ficar fascinada com a descoberta de cada um daqueles itens: a foto do vovô, ainda um jovem militar, com sua farda imponente e uma bela dedicatória a vovó escrita na parte de trás; lembro da foto da vovó, uma doce jovem, de pele branquinha, com seus lindos cachos feitos à mão perfeitamente penteados, seus olhos castanhos brilhantes e seu batom vermelho contornando seus pequenos e perfeitos lábios (batom e esmalte vermelhos eram marcas registradas da vovó); das fotos da minha mãe com minhas tias ainda crianças, dos anéis do vovô, do terço de ouro que ele deu para a vovó, do relógio antigo, tantas coisas boas, tanta vida, tanta história.

Lembro, que sempre que ao visitá-los pedia entusiasmada: “Vovó posso arrumar suas gavetas?”, “Vovô posso ver seu baú?”. E eles sorriam docemente e me deixava mexer em suas lembranças. E toda vez, era como se fosse a primeira vez, eu via cada foto, cada cartão, cada lembrança com o mesmo encantamento que o da primeira vez. Até hoje ao mexer naquele baú me sinto feliz.

Então, aprendi que isso era algo único, uma coisa mágica, que por alguns instantes nos remetia a momentos especiais, a boas lembranças. Era como um remake da nossa história. Assim cresci querendo construir minha própria caixa de lembranças. E venho fazendo isso ao longo dos meus trinta e poucos anos.

Mas, não pense que é fácil, aprendi que não dá para escrever uma história sozinha, para ter o que lembrar é preciso se relacionar, se envolver, se doar a quem nos dá o privilégio de compartilhar conosco suas vidas.

Portanto, cultivo pequenas delicadezas como escrever uma carta manuscrita a uma amiga, enviar um cartão de natal pelos correios, dar um cartão escrito junto com o presente de aniversário. Não me deixei dominar pela onda das redes sociais, até gosto de escrever belas dedicatórias por elas ou enviar um e-mail, porém, o ritual de destacar uma folha de caderno, depois selecionar alguns adesivos, escrever com cores diferentes para colorir minhas palavras é algo muito valioso para mim, uma sensação de transferência de carinho por meio do toque dos meus dedos no papel, do desenho de cada letra, cada palavra escrita exprime minha emoção e a relevância que aquela pessoa tem na minha vida.

No próximo post vou lhe contar sobre o que encontrei ao abrir minha caixa…

Até lá.

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