Um dia para refletir*.

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Hoje é celebrado o ‘Dia Internacional da Mulher’, mas já faz algum tempo que ando pensando sobre esse dia e me questionando se há mesmo o quê celebrar.

Nos últimos dias, o que mais vemos nos noticiários são barbaridades e injustiças cometidas com as mulheres pelo mundo. E, lendo essa frase da Simone de Beauvoir, entendo que realmente, não nascemos mulheres, vamos nos tornando – caso a vida nos permita – ao longo da nossa caminhada. Só que a quantas de nós esse direito é revogado? Muitas.

Todas aquelas meninas sequestradas pelo Boko Haram na Nigéria, as jovens violentadas na Índia, as jovens exploradas sexualmente no Brasil, as meninas vítimas de casamentos arranjados no Oriente, os bebes que são literalmente descartados na China só por serem meninas, as várias adolescentes que jamais se tornarão mulheres, pois, são vítimas do machismo, da misoginia que ainda assola o mundo. Isso para não falar daquelas que já mulheres, adultas, não conseguem desabrochar sua verdadeira essência porque são sufocadas por parceiros ciumentos que as agridem, por homens que as abusam porque se julgam donos de seus corpos (e a justiça falha muitas vezes deixando-os impunes), mulheres que morrem sangrando por não terem condições financeiras para realizarem a difícil atitude de optar pelo aborto, que são denunciadas à polícia por médicos que deveriam honrar seu juramento e salvar as suas vidas mantendo o sigilo da relação paciente-médico. E tantas outras barbaridades que nossas mulheres sofrem diariamente.

Hoje, li uma matéria que dizia que a terceira maior causa de morte das mulheres no mundo é a infecção por falta de saneamento básico, só perdendo para doenças cardíacas e respiratórias.

Há poucos dias, vimos na cerimônia do Oscar várias atrizes manifestando sua indignação em relação ao machismo que ainda privilegia os homens com salários mais alto para o mesmo cargo, a mídia que foca apenas em seus vestidos ao invés de valorizar sua trajetória profissional, e, reparem, não estamos falando do Brasil, mas sim, dos Estados Unidos, a maior potência mundial!

Ano passado, na cerimônia de abertura da Copa, em São Paulo, vimos a presidenta Dilma Rousseff ser cruelmente xingada por centenas de brasileiros sem o menor respeito, não digo somente pela posição de chefe de Estado que ela possui, mas por ser mulher, mãe e avó. Eu não me lembro de ter visto um presidente homem sofrer tamanha ofensa como a sofrida por ela perante sua família e o mundo inteiro. E me questiono: será que aquelas pessoas que a xingaram tem mãe? Tem filha? Tem irmã? Tem avó? É provável que sim. E como eles reagiriam se ofendessem as mulheres de suas famílias dessa forma? Duvido que achariam normal, que justificariam como a “liberdade de expressão”.

Outro dia vimos um deputado incitando o estupro em resposta a outra deputada, sem o menor pudor, justificando que ela havia iniciado a provocação, e, por isso, ele tinha o direito de se defender. Desde quando ofender é um ato de defesa? Para mim é um ato de agressão. Ainda sobre o estupro, nessa semana foi divulgada a reapresentação de um programa de entrevista, onde o ator Alexandre Frota, narra uma história de ataque, ofensa e sexo sem consentimento (leia-se: estupro) a uma mulher. E, pasmem: a plateia e o apresentador, TODOS, riram e APLAUDIRAM a “engraçada” história contada!

Essa semana, uma jovem estudante, aqui na zona sul do Rio, indo para o colégio cochilou no caminho e acordou assustada ao sentir que o homem sentado ao seu lado estava com a mão embaixo de sua saia! Ela imediatamente o recriminou e ele nada disse. Absolutamente nada. Ela, sabiamente, usou a rede social para avisar seu pai, que conseguiu parar o ônibus junto com a polícia e o homem foi preso em flagrante. Desde então, a jovem decidiu ir de calça para o colégio, com medo de um futuro assédio sexual.

Reparem, tudo isso está acontecendo em todos os níveis sociais, intelectuais, em países ricos, emergentes e pobres, de religiões distintas, de culturas diferentes, das mais diversas etnias, em todas as idades, com partidos de esquerda, direita, o que nos leva a crer que rótulos não importam e nem são a causa de tanta violência. Porque o cerne desse mal todo é a ausência de respeito pelas mulheres mundialmente.

Portanto, aquela minha dúvida acima diante dos fatos atuais, só me induz a uma resposta: não vou escrever para celebrar esse dia, não vou exaltar as nossas qualidades, pois, já são sabidas. Ao invés disso, escrevo no dia de hoje para deixar a seguinte mensagem: “Vamos nos enxergar, nos ajudar, cuidar mais uma das outras.”.

O projeto Espirituosa tem esse objetivo: de cuidar uma das outras, de ajudar aquelas irmãs, mulheres como eu e você, que não tem a mesma alegria que temos em nossos lares, com nossos maridos, nossa família, que não puderam ter a opção de se tornarem mulheres como nós nos tornarmos por conta da desvalorização na qual nosso gênero ainda é submetido. Vamos parar um pouco de olhar só para o nosso mundo e reparar em volta, vamos parar de julgar e apontar o dedo para a outra como se nós nunca tivéssemos feito nada de errado, vamos procurar formas de contribuir para que mais de nós possam se tornar mulheres.

Eu deixo minha gratidão a todas as mulheres que cuidam, cuidaram e aquelas que ainda cuidarão de mim. Da mesma forma que serei grata a Deus se um dia me permitir gerar a vida de outra mulher.

Tenho uma amiga que diz a seguinte frase: “Juntas somos mais” e com esse pensamento fecho o texto de hoje.

Que, de fato, seja um Feliz Dia Internacional da Mulher para mim, para você e para todas as nossas meninas, jovens, mulheres e idosas.

*Texto original.

Para conhecer a causa do projeto Espirituosa, acessem: www.espirituosa.com.br

Um comentário

  1. Eu acho esse tipo de dia importante para fazer justamente isso: refletir. Olhar o mundo e ver as conquistas, os problemas e pensar nas soluções.

    Apesar de todas as conquistas as mulheres ainda são muito desrespeitadas.

    É preciso conscientizar as mulheres que elas podem mais e que não podem aceitar passivamente os abusos. Somente a luta diária pode mudar isso.

E então, gostou? Me diga aqui no comentário.

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