Conversas sobre a sociedade

Somos todos contra.

aborto

Nos últimos meses ocorreram manifestações pró e contra o aborto. Eu, sinceramente, não acredito que alguém seja a favor do aborto, pois, isto significa acreditar que uma intervenção tão séria e arriscada quanto o aborto pode ser um meio contraceptivo normal – o que discordo totalmente e não conheço uma pessoa sequer que concorde.

As últimas semanas foram marcadas por declarações de personalidades que disseram já terem abortado e não são a favor dessa prática, mas por já terem passado por essa traumática situação, sabem que a criminalização é uma forma de feminicídio legal.

Outra reportagem polêmica foi de uma francesa: ela tinha vindo há um ano trabalhar e morar no Brasil, mas por irresponsabilidade sua e do parceiro, acabou engravidando e não se sentia preparada econômica e emocionalmente para ser mãe. Como aqui o aborto é crime, ela não tinha família e seu parceiro não era uma relação séria, acabou optando por abandonar seu sonho de permanecer aqui e retornou ao seu país, onde poderia abortar com segurança, pois, lá é legalizado.

Além disso, a população francesa compreende que prosseguir (ou não) com uma gestação é uma escolha particular da mulher.

Ao ler essa matéria e os comentários condenatórios pude comprovar o tamanho da intolerância e crueldade que existe contra mulheres que optam por realizar o aborto.

Eu nunca fiz. Nunca engravidei. E acredito que não teria coragem de abortar. Entretanto, tenho amigas que já o fizeram por não estarem preparadas para serem mães. E tenho amigas que sofreram abortos espontâneos – por problemas de saúde. Em ambos os casos, todas carregam a dor e o lamento dessa ação, ao contrário do que a maioria dos intolerantes deva achar, elas não se sentem tranquilas por terem abortado, não amanheceram no dia seguinte e foram passear no shopping ou pegar um bronzeado na praia como se nada tivesse acontecido. Não. Elas sofreram seu luto. E, trazem até hoje o peso de quem passa por essa situação.

Li uma matéria do Dr. Drauzio Varella, onde com muita sensatez, honestidade e clareza expõe que o aborto é livre, sim, liberado no Brasil, a diferença é que para as mulheres com boa condição financeira o risco é bem baixo de morte já que podem pagar pelo atendimento em uma boa clínica clandestina. Agora, para as mulheres que não possuem poder aquisitivo alto, a morte, as complicações, e, muitas vezes, a prisão é quase certa. Sabe por quê? Porque elas precisam se sujeitar a compra de remédios em camelôs e ingeri-los sem nenhuma orientação, porque ao apresentarem complicações e recorrerem a um hospital o médico irá denunciá-la a polícia e ela sairá direto para a cadeia (ao invés de cuidar da saúde dela).

Então lhe pergunto: existe ou não o aborto no Brasil? É liberado ou não? Eu acho que sim, porque se quisessem mesmo proibir não haveria tanta oferta para a prática ilegal e clandestina de se interromper uma gravidez.

A discussão sobre quem é a favor ou contra é inútil e não nos levará a lugar algum. Como já disse, acredito que sejamos todos contra. A grande questão é: como evitar que mulheres, principalmente as pobres, morram recorrendo a essa prática. Até quantas semanas é possível abortar? Qual a avaliação pela qual as mulheres precisarão serem submetidas antes de efetuar o ato? Qual o acompanhamento que ela terá depois de ter se submetido a cirurgia? Como fiscalizar e inibir a venda desses remédios abortivos? Como preparar a equipe de saúde, os postos, hospitais e clínicas para realizarem essa intervenção sem colocar em risco a vida da mulher? São tantas perguntas a serem discutidas, tantas respostas a serem encontradas que eu não consigo compreender como ainda estamos divagando sobre ser contra ou a favor!

Lembremos do caso da Jandira, uma jovem pobre de 27 anos, que recorreu ao aborto em uma clínica clandestina e acabou sendo brutalmente assassinada e teve seu corpo abandonado em um carro no Rio de Janeiro.

A morte diária de mulheres brasileiras pobres que recorrem ao aborto é uma realidade. E a ajuda a estas mulheres vem muitas vezes de fora do país como a médica holandesa Rebecca Gomperts que leva apoio, orientação e a possibilidade de salvar a vida dessas mulheres através do seu projeto Women On Waves (mulheres sobre ondas), onde distribui informações de como realizar o aborto de forma segura.

A bancada religiosa, composta na maioria por homens, na Câmara dos Deputados reduz essa questão tão séria e urgente de saúde pública, o aborto, a um café-pequeno filosófico e falso-moralista. Enquanto perde-se tempo com isso, mais e mais mulheres morrem diariamente por terem que recorrer a forma clandestina de interromperem suas gestações. Por isso, o deputado Jean Wyllys apresentou no mês passado uma proposta de lei (PL 882/2015) que torna o aborto seguro uma prática legal a ser realizada pelo SUS ou redes privadas (tendo a gestação até 12 semanas ou salvo em exceções onde a vida da mãe ou do bebe corra risco).

Sei que algumas pessoas dirão que conhecem fulana e beltrana que fizeram vários abortos, que acham normal, que isso-e-aquilo, para vocês eu pergunto: “Quantas são essas mulheres que tratam o aborto de forma banal? E quantas são aquelas que optaram por não terem, de fato, condições e se sentem culpadas até hoje por isso?”

Quantas são as mulheres que levaram a gestação até o final e ao parirem, saíram do hospital e jogaram seus bebes em lixeiras, rios, bueiros, caçambas, sacos plásticos? Muitas! E como combater isso? Conversando sobre o aborto.

Minha mensagem final que deixo para reflexão de cada um:

“Paremos de apontar o dedo uns para os outros.

Encaremos de frente esse assunto de extrema importância.

Falemos sobre o aborto a fim de proteger nossas mulheres.”

 

Fontes para vocês lerem mais a respeito e ajudar em suas reflexões:

http://www1.folha.uol.com.br/cotidiano/2015/02/1592839-medico-chama-policia-apos-atender-jovem-que-fez-aborto-na-grande-sp.shtml

http://g1.globo.com/mundo/noticia/2015/02/aliviada-diz-francesa-que-saiu-do-brasil-para-fazer-aborto-legalmente.html

http://gnt.globo.com/programas/saia-justa/videos/4007437.htm

http://revistamarieclaire.globo.com/Celebridades/noticia/2015/02/debora-bloch-revela-que-fez-aborto-aos-20-anos-e-defende-legalizacao-e-hipocrita-fingir-que-nao-existe.html

http://oglobo.globo.com/rio/desconfiados-apos-denuncias-camelos-deixam-de-oferecer-abortivo-na-rua-uruguaiana-15498267

http://noticias.r7.com/cidade-alerta/fotos/sem-coracao-veja-casos-mais-crueis-de-bebes-abandonados-por-maes-apos-parto-23022015#!/foto/9

http://g1.globo.com/rio-de-janeiro/noticia/2014/11/ex-de-jandira-e-indiciado-por-apoio-aborto-no-rio-numero-sobe-para-14.html

http://revistamarieclaire.globo.com/Mulheres-do-Mundo/noticia/2015/03/sei-que-faco-coisa-certa-diz-diretora-de-ong-que-envia-abortivos-pelo-correio-para-o-brasil.html

http://oglobo.globo.com/sociedade/jean-wyllys-protocola-projeto-de-regulamentacao-do-aborto-15687763

 

Um comentário

  • luizshigunov

    Excelente texto! Eu penso a mesma coisa.

    É um absurdo que tantas mulheres morram por conta disso. O Brasil vai ficando para trás como ficou com a escravidão (foi o último a abolir). Portugal já legalizou!

    Os homens cometem aborto e nada acontece com eles. Porque um homem que abandona uma mulher grávida é como abortar.

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