Tédio, o vilão da atualidade.

tedio

Ultimamente, ando analisando e conversando, com algumas pessoas sobre, o tédio nosso de cada dia. Parece que ninguém mais consegue ficar dez minutos olhando para o nada, entediado.

O tédio virou sinal de que algo vai mal, de fraqueza, de vulnerabilidade de ser menos do que se é de verdade.

Com as crianças, isso tem sido visto com uma frequência assustadora. Elas vivem com o celular dos pais (ou muitas vezes delas próprias) em mãos, com tablets, IPads ou videogame, enfim, raramente nos deparamos com crianças fazendo nada e se sentindo confortável com isso.

Então, fico pensando no que as pessoas estão se tornando, e, pior que isso, em que adultos nossas crianças se tornarão? Serão pessoas impacientes, agitadas, pouco criativas, com grandes dificuldades em se relacionar com o outro (até consigo mesmo). E tudo isso porque estamos perdendo a capacidade de lidar de forma positiva com o tédio.

Sentimento este natural a todo ser humano. Nossos pais foram entediados, nossos avós também a espera para pôr à mesa do almoço de domingo – até que todos os parentes chegassem para se sentarem reunidos à mesa e almoçar (sem pressa, conversando, rindo e brincando uns com os outros).

Lembro-me de ficar entediada muitas vezes quando era menina, sou filha única, portanto, não tinha outra criança para distrair-me enquanto mamãe ainda preparava o jantar. O jeito era usar a criatividade para fazer o tempo passar, lá em casa TV ligada tinha hora para começar e para acabar, e quase sempre durante a espera das refeições mamãe não ligava a televisão. Resultado: eu colocava todas as minhas bonecas sentadas no sofá e ficávamos ali na sala, reunidas e conversando até que a mamãe mandasse eu guardar todas porque já iríamos comer. E, olhem só, não morri por enfrentar o tédio. Estou vivinha da silva e sei ficar à toa quando quero, sem fazer absolutamente nada!

Li alguns textos de mães que tomaram consciência de que estavam deixando de ensinar seus filhos a encararem o tédio de forma positiva, construtiva e natural. Elas perceberam, que a criança com tanta informação pronta e à disposição, nos variados dispositivos eletrônicos existentes nos lares, não sabiam mais brincar sozinhas, sabe aquela coisa de criar um amiguinho imaginário e ficar conversando com ele? Elas não faziam isso, não se concentravam por muito tempo em uma brincadeira (que não fosse no meio digital), não liam um livrinho por completo, não estavam desenvolvendo a capacidade de imaginar de forma lúdica, esperta, atenta e vivaz esperada (ao menos teoricamente) de toda criança.

Por conta disso, muitas dessas mães começaram a limitar em uma hora o tempo das crianças nos joguinhos eletrônicos ou de frente para a televisão. Fora desse tempo a criança precisaria ser criança, brincar, pintar, falar, correr, pular, chorar, dormir, cantar, enfim, ela deveria fazer o que estava na fase de ser feito. E dá trabalho cuidar da criança que não está muda, sentada e estática em frente ao desenho animado ou pintando no tablet? Sim dá. Mas, ser mãe e pai é ter trabalho, faz parte não sabia disso? Ops! Então, se anima porque passou a saber agora.

Hoje vejo muitos adolescentes que não sabem fazer amigos, conversar, se relacionar, criar grupos, trocar de grupos, expor sua opinião de forma empática – sem machucar o outro – não sabem conversar olhando nos olhos, não sabem ligar um para o outro, só se falam por whatsapp (incluindo quando estão próximos) e isso me deixa espantada! Não tem mais aquele trabalho em grupo a tarde na casa de um para filarem o lanche que a mãe do colega fazia, ou as próprias garotas não vão para a cozinha fazer um bolo, brincar de confeitar, preparar aquele misto quente. Cadê gente a iteração social de vinte anos atrás? Sumiu?

Acho que se perdeu quando o celular invadiu os colégios, as salas de aula, a internet se popularizou, o computador saiu da sala das residências e foi parar no quarto das crianças. Desde então, o que vemos são jovens adultos crescendo sem saber se comunicar, se expressar, se relacionar com o outro de forma saudável. O mais preocupante é que se você não consegue interagir com o outro, escutar as aflições do outro, ser generoso, empático, gentil com o outro, dificilmente, conseguirá ouvir a si mesmo – ser generoso com seus erros, saber se perdoar.

Um Salve ao TÉDIO!!! Que estimula nossa criativa, acalma nossas inquietações, nos permite silenciar e ouvir o nosso coração.

Que os pais de hoje aprendam a viver com o tédio e a estimular seus filhos a lidar com esse sentimento da forma mais natural e sadia possível, pois, só assim resgataremos o valor das relações humanas nas próximas gerações porque nesta já não me resta muita esperança.

Luz em nossas caminhadas.

E então, gostou? Me diga aqui no comentário.

O seu endereço de e-mail não será publicado. Campos obrigatórios são marcados com *