Conversas sobre as dores da alma

Efeitos de uma frase.

por-ummundomaisreal2

 

Era uma tarde chuvosa atípica ao período do ano, primavera.

Elas conversavam sobre as tentativas frustradas de incentivar a inclusão e sinergia das pessoas do grupo ao qual participavam. Dentre vários cenários, sugestões, desabafos, análises e ideias, elas falavam de como é difícil estimular a motivação no outro, o quão difícil era conseguir alcançar uma parte íntima nos colegas que os fizessem pulsar e vibrar na mesma sintonia que elas sentiam em relação ao ambiente.

Nas narrativas das histórias já vivenciadas, uma delas comentou que em um processo de aperfeiçoamento profissional ela tinha compreendido que é difícil descobrir os sonhos, os desejos, os medos existentes, pois, na sociedade capitalista em que vivem, as sensações e os sentimentos não são analisados, percebidos, sentidos, pois, geralmente, as pessoas tendem a viver no piloto automático, somando dias as suas vidas e não o contrário. Ela contava que havia entendido que o autoconhecimento é muito difícil de ser despertado e portanto a maioria das pessoas não se conheciam – e dessa forma não sabiam do que precisavam para serem felizes.

Durante a conversa, uma delas cansada de vivenciar diversas tentativas frustradas para mudar o comportamento dos demais falou a seguinte frase: “Não dê pérolas aos porcos.”

E, diante dessa frase, a outra mulher – recém chegada aquele ambiente, incluída no contexto daquelas pessoas – sentiu essas palavras como um soco forte bem no meio do seu estômago! Um SOCO!

Naquele instante, a chuva lá fora apertou, o chão de repente pareceu-lhe ter se aberto e ela caiu em um profundo buraco. O seu inconsciente nesse mesmo instante a abraçou e desligou tudo ao redor, protegendo-a de tamanha desumanidade.

Foi tenso.

Foi doloroso.

Foi impactante.

A cabeça dela girava em torno das seguintes perguntas:

  • O que aquela frase queria transmitir?
  • Quem queria machucar?
  • Quem se sentia tão intocável ao ponto de falar aquilo para alguém?
  • O que o valorizaria e o faria ser tão melhor do que os outros?
  • Em qual situação aquilo poderia se aplicar de forma justa e empática às pessoas envolvidas?
  • Como aquilo poderia gerar alguma boa lição? Em quem?

Ela não achava nenhuma resposta a essas perguntas, sentia apenas aquela dor que reverberava e a fragilizava desordenadamente.

Saiu caminhando pelas ruas, ainda tomada daquela sensação de paralisia e tristeza. Ela sentia as gotas das chuvas tocar-lhe a pele, gotas de água frias, frias como as suas percepções adormecidas pela indignação de ter ouvido aquela frase sendo aplicada para aquelas pessoas, que ela tanto se empenhava e acreditava que poderia ajudá-los a mudar. Mudar para melhor.

Após uma longa caminhada ela retornou para o local onde estavam e encarou aquelas pessoas com um olhar mais generoso, olhou com compaixão, praticou a empatia e se questionou o que elas deviam ter vivido em suas vidas pessoais, quais seriam as suas bases familiares, suas referências de vida que as faziam serem tão descrentes e distantes do que ela gostaria que eles sentissem: a motivação e a crença de que poderiam ser tudo aquilo que gostariam de ser, que poderiam evoluir e alcançar todos os seus sonhos (que sonhos? será que eles sonhavam?).

Aquela sensação de gelo e frio estava se dissipando, foi se esvaindo diante dos sorrisos conquistados, da observação humanista, do desejo que a impulsionava a ajudar mais pessoas a se conscientizarem de que somos todos humanos: com nossas dores, nossas frustrações, nossos medos, nossos desejos, nossas limitações, nossos egos conflitantes, nossas referências neuróticas, nossas fragilidades, nossas sensações, histórias e esperanças.

Ninguém pode se considerar pérolas.
Ninguém merece ser comparado a porcos.
Porque ninguém conhece a dor do outro por completo.
Somos feitos de sentimentos, de fragilidades, de vícios, virtudes, e, todos merecemos ser enxergados como alguém que deseja apenas ser feliz.

Concluo esse conto, pedindo a vocês que cuidem de suas palavras, cuidem daquilo que foge de suas bocas, porque ninguém é melhor nem pior do que ninguém. Somos diferentes, indivíduos únicos por natureza e carregamos dentro de nós nossas histórias, neuroses, desejos, sonhos e medos.

Então, pratique a empatia, a generosidade e a escuta.

Se você se propõe a ouvir alguém, a querer conhecer o sonho de alguém, a querer ouvir a opinião de alguém, esteja a altura da confiança que lhe será dada. E seja grato por isso.

Não pré-julgue, nem se desmereça do que lhe for dito ou omitido.

Você só será capaz de desenvolver outro ser humano quando for capaz de se reconhecer como um deles.

Luz (e humildade) na caminhada.

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