Sororidade seletiva

 

Dias desses li uma postagem na rede social de uma moça dizendo o quanto lamentava o afastamento ocorrido entre ela e seu grande amigo por conta dos ciúmes vividos pela nova namorada do rapaz.

Então, ela citou o termo ‘sororidade seletiva’, que instigou a minha curiosidade e fui ler mais sobre o assunto. Para nivelar o nosso entendimento, vou compartilhar um trecho da definição de sororidade:

É a união e aliança entre mulheres, baseado na empatia e companheirismo, em busca de alcançar objetivos em comum.

Agora, vou compartilhar o significado de sororidade seletiva:

Uma segregação entre subgrupos que estão inseridos no conjunto do que seria o “ser mulher”. Ou seja, quando a irmandade entre as mulheres é baseada em interesses pessoais de determinadas pessoas, ignorando o companheirismo empático e altruísta.

Percebi que essa seletividade está presente de maneira (ainda) natural no cotidiano de muitas mulheres. Começando pela situação clássica que me inspirou a escrever sobre esse assunto: a nova namorada que, por ciúmes, exige que o namorado se afaste de suas amizades femininas.

Assim como ocorre quando uma nova profissional (bonita e com um corpo sarado) é contratada na empresa e as mulheres se reúnem em rodinhas dizendo que sabem o porquê da contratação – fazendo referência a beleza da outra mulher [em vez de ficar animada por ter mais uma mulher no time e aumentar assim a representativa feminina na empresa].

Ou quando olha uma mulher acima do peso na praia e diz que é muita coragem colocar um biquíni [em vez de admirar que a autoestima da outra mulher a faz se sentir segura e livre para ir aonde quiser e se vestindo como desejar].

Ou quando vê uma mulher muçulmana com o seu tradicional lenço e lamenta por ela ser submissa e oprimida – mesmo sem saber que a opção por manter o vestuário tradicional foi uma escolha da mulher [em vez de admirar a aparência e os costumes de uma cultura diferente da sua ocidental].

Ou quando vê uma mulher ser agredida pelo parceiro e se mantém na relação a julga como ‘sem vergonha’, ‘gosta de apanhar’ – mesmo não sabendo absolutamente NADA do que aquela mulher vive e dos motivos que a faz se manter naquela relação infeliz e abusiva [em vez de tentar pensar de forma empática e até mesmo supor que aquela mulher pode ter medo de sair de casa e não conseguir sustentar os filhos, pois, está afastada há anos do mercado de trabalho por imposição do marido].

Ou quando sabe de uma traição e prontamente xinga e repudia a amante, se esquecendo que o homem traiu por livre escolha e era ele o comprometido na relação com a esposa.

Ou quando conhece uma mulher que mesmo após a maternidade continua trabalhando e deixa o seu filho na creche, se gabando que parou de trabalhar logo após se tornar mãe para se dedicar a criação dos filhos [em vez de se solidarizar por saber o quanto é importante a presença materna com a criança e lamentar que a outra mãe talvez por questões financeiras não teve escolha e precisou voltar a trabalhar com seu filho ainda bebe].

Ou quando não aceita a incompatibilidade de afinidades entre a sua filha e outra menina e diz para a filha que a outra tem inveja dela [em vez de aceitar as diferenças e não nutrir rivalidade].

Ou quando não aceita uma mulher transgênero compartilhando o mesmo banheiro público porque, afinal de contas, ela não é ‘mulher de verdade’.

Ou quando se cobra absurdamente a manter uma imagem de ‘mulher ideal’ vendida pela indústria e passa por cima da própria saúde para ser aceita pelos demais.

Ou quando escuta uma mulher dizer que não quer ser mãe e acha um sacrilégio, pois, ‘toda mulher nasceu para ser mãe’ [em vez de simplesmente respeitar a escolha de vida da outra pessoa].

Ou quando defende de toda maneira o parto natural e discrimina as mulheres que passaram por uma cesárea, sem saber elas o quão difícil foi para essa mãe aceitar a indicação clínica a qual teve que se submeter.

Ou quando aponta mil e um defeitos na criação do filho da outra mulher, se mostrando como modelo de mãe perfeita, esquecendo de olhar para dentro de casa e perceber as falhas de sua própria criação [porque ninguém é perfeito, nem as mães!]

Essas são apenas as situações mais corriqueiras do cotidiano nosso de cada dia, onde a seletividade grita e silencia a sororidade tão necessária nos tempos atuais, onde mais e mais mulheres são agredidas, assassinadas, violentadas, discriminadas e subjugadas em nossa sociedade.

Falar de irmandade para as nossas amigas, nossas mães, filhas, primas é muito fácil. Agora, falar e, principalmente, praticar com mulheres desconhecidas aí é outra história.

Precisamos aprender a ser nossas melhores amigas, aceitando as nossas imperfeições, as nossas limitações, praticando a autocompaixão e depois estendendo isso as outras mulheres, sejam elas do nosso círculo ou não.

Luz e compaixão em nossa caminhada.

*

*

*

Fonte: https://www.significados.com.br/sororidade/

5 comentários

  1. Jane Gomes

    Perfeito!!! Cada vez amo mais ler os seus textos, além de expor situações atuais em todos os setores da vida, motivou-me mais uma vez a reflexões de minhas atitudes perante ao outros.Parabéns! !!

  2. Luiz Shigunov

    Muito interessante. Não conhecia esse termo sororidade, mas já presenciei várias dessas atitudes.

    Parabéns pelo texto.

  3. janeth

    Parabéns!!! Lindo texto, leva-nos a refletir sobre nossas atitudes e palavras. Incentiva-nos a avaliarmos nosso
    comportamento em relação ao nosso próximo. Continue nos presenteando com textos inspiradores como esse.
    já estou aguardando pelo próximo. Um beijo no seu coração.

  4. Dinah Dantas

    Muito bom o texto. É verdade, as mulheres precisam parar de julgar as outras, acabar de vez com o machismo feminino.
    O machismo não vai acabar, enquanto existir mulher machista.

  5. Renata Cardoso

    Realmente esse texto é perfeito para refletirmos sobre as nossas atitudes diárias com os outros. Me identifiquei muito com seus textos, pois sempre me coloco no lugar dos outros principalmente quando vou falar algo seja positivo ou negativo.

E então, gostou? Me diga aqui no comentário.

O seu endereço de e-mail não será publicado. Campos obrigatórios são marcados com *