Porque dei uma boneca preta para a minha filha branca.

Olá!

Você deve ter achado no mínimo curioso o título desta postagem. Aproveito para explicar logo que quis mesmo chamar a sua atenção, por isso usei esse título.

Hoje, eu comprei a primeira boneca para a minha filha (de 1 aninho). Quem me acompanha sabe que os primeiros objetos lúdicos que comprei para ela foram livros, e, confesso, não tenho muito critério para livros – nem para os delas nem para os meus, pois, creio que livros sempre terão algo a nos ensinar e ajudar. Entretanto, para outros objetos como bonecos, pelúcias, joguinhos e tantos outros sou MUITO criteriosa e cuidadosa. Não aceito brinquedos que querem dar a ela em excesso e digo a todos quais brinquedos ela pode ganhar (se ainda não tiver) de acordo com a fase atual de seu desenvolvimento e do interesse que ela esteja demonstrando.

  • Quais brinquedos comprei para ela e porquê.

Até hoje, eu dei a ela um cavalinho para montar porque ela estava começando a tentar caminhar e ele era um estímulo para que se mantivesse de pé se equilibrando. Depois, dei um pião de plástico simples para ela ajustar o controle motor fino ao tentar rodar. Em seguida, uma vassourinha porque começou a andar pela casa me imitando a varrer – e, isto, contribui para estimular a sua definição de identidade e criatividade. Além disso, dei uns bichinhos da turma da mini galinha pintadinha – que vendem naquelas máquinas de moeda de R$2,00 que tem em shoppings e mercados porque ela gosta do desenho e é apaixonada por galinhas e galos.

  • Por que, então, uma boneca?

Esse ano após iniciar a minha graduação em psicologia, percebi que as duas bonecas que ficavam esquecidas na estante dela tomaram um outro sentido para ela, uma ela ganhou da tia enquanto eu ainda estava grávida e passou a ser a neném dela – só dormia com ela. Por ser de pano eu preciso lavar às vezes, nesse momento, ela se apropriou da outra boneca, da minha boneca, que minha mãe me deu e eu deixei enfeitando a estante dela. Analisando esse comportamento e falando com algumas professoras, entendi que ela estava definindo um objeto de transição para se sentir mais segura, porque a nossa rotina mudou, ficávamos juntas o dia todo (desde o seu nascimento), e, a partir do momento que passei a estudar de manhã houve uma ruptura em nossa rotina. Sabemos que toda mudança causa insegurança na criança, portanto, como um ato de autodefesa inconsciente, ela adotou a neném para se sentir (novamente) segura. E, desde então, sempre brinca com essas duas bonecas e não dorme sem a neném dela. (passei até a levar nas viagens)

  • Ensinando a evitar o consumismo.

Sempre que vamos a lojas ou mercados que tem seção de brinquedos eu e ela ficamos lá brincando com tudo que faça barulho, acenda luz, se movimente ou seja fofinho de apertar. Brincamos, brincamos, brincamos e depois colocamos tudo no lugar. Faço isso porque é importante que ela entenda que não precisamos levar para casa, afinal de contas, em casa já temos brinquedos. Assim, vou ensinando a ela – por meio da experiência e do exemplo – que não precisamos consumir tudo que vemos.

  • Construindo a sensação de novidade, mesmo sem brinquedo novo.

Outro ponto é sobre a gestão dos brinquedos, em um curso que fiz sobre criar crianças criativas (do Murilo Gun) aprendi que precisamos ensinar a criança a olhar por outro ângulo um mesmo brinquedo (por exemplo, virando de cabeça para baixo) porque isso se traduz para ela como novidade. Li em um artigo de um pediatra que não é aconselhável deixar todos os brinquedos da criança à disposição dela o tempo todo, isso inibe a sua curiosidade e acaba se acostumando com os brinquedos. Então, a sugestão é que semanalmente a gente troque os brinquedos expostos, deixando de 3 a 5 brinquedos somente disponíveis para elas – porque isso aumenta as chances dela, de fato, brincar e se concentrar porque tem poucas opções, -quando deixamos muitos objetos à mão ela fica tão confusa com tudo, que acaba perdendo o interesse de brincar por longos períodos com o mesmo, e isso compromete o estímulo a sua criatividade, concentração e o desenvolvimento cognitivo e social.

  • A decisão pela boneca preta e não branca.

Bom, deu para perceber que tento agir de modo consciente em cada uma das minhas atitudes em relação a educação dela, né? De fato, estudo muito, desde a gestação, porque ninguém nasce sabendo ser mãe ou pai, porém, sabemos que o conhecimento está disponível no mundo físico e virtual, basta irmos atrás e estudar.

Entender o conceito sócio-cultural em que nossos filhos estão sendo criados é essencial para tomarmos decisões conscientes e zelosas. O Brasil é um país onde grande parte da população é negra ou parda, e, mesmo assim, o racismo é latente, pulsante, crescente e torna-se menos velado a cada dia.

Em uma tarde brincando com o pai no parquinho do condomínio de onde moramos, uma menina, em torno de 8 anos, que já havia brincado com a minha filha disse assim “Ué, você não era branca!?” e o meu marido bem surpreso com essa fala, respondeu “É que ela pegou sol.”. Eu não estava presente. Ele me relatou isso depois. Analítica e crítica que sou, refleti sobre a fala da menina e minha leitura foi a de uma atitude bem preocupante.

Uma criança de 8 anos não está interessada na cor da pele da outra criança, elas reparam na roupa, sapato, penteado, brinquedo, enfim, cor de pele não é objeto de interesse de uma criança. Vou mais a fundo, essa fase, a terceira infância é onde a criança começa a se aproximar da pré-adolescência e a formar o seu próprio senso moral, suas leis internas de certo/errado, bom/mau, bonito/feio e tantas outras pré-concepções que vão se formando até a conclusão de sua personalidade.

  • A atenção aos detalhes e o cuidado de antever situações de conflitos.

Então, se essa menina reparou na cor da pele da minha filha (que é branca na certidão de nascimento, mas, obviamente é parda porque o pai é branco descendente de europeus e a mãe, parda, miscigenada, com descendência de italiano, português e índio em sua árvore genealógica) é um sinal de alerta sobre os ambientes socio-educadores desta menina, que, em princípio, tem como valor a cor da pele (leia-se etnia) e está transmitindo isso para ela como um valor – que não sabemos se será para valorizar as diferenças ou estigmatizar (separar/afastar do seu convívio). Dependendo do rumo que se der, a minha filha poderá, ou não, ser uma vítima e sofrer.

[Racismo não vem no DNA, é uma convicção dogmática e cultural aprendida dentro do ambiente social em que o indivíduo nasce e cresce.]

Nós moramos aqui em São Paulo longe de nossas famílias. No bairro em que moramos não há muitos negros, não temos aqui uma rede de amigos, logo, a minha filha não frequenta lugares que mostre a ela que a mãe dela não é a única pessoa não-branca que ela vê todos os dias.

Eu não posso controlar nada, eu sei. Mas, eu posso fazer tudo o que estiver ao meu alcance para lhe apresentar a pluralidade do mundo, em relação a tudo que nos envolve em nossa sociedade e está impregnado em nossa cultura: diferença de etnia, classe social, idiomas, clima, cenários e tudo que compõe esse local em que vivemos, o Brasil.

  • Bem-vinda, PretaLinda!

Por isso, aproveitei o interesse dela em bonecas, a fase atual de seu desenvolvimento (cognitivo e linguagem) para presenteá-la com a PretaLinda, o nome de sua boneca, que explico a razão: Preta escolhi porque é a cor dela e não morena/jambo/chocolate/caramelo e tantas outras nomenclaturas que usamos para disfarçar o racismo velado. E Linda porque ela é mesmo linda e quero que a minha filha admire essa beleza, a beleza que existe não apenas no que nos é semelhante, mas, e, principalmente, no que é diferente.

  • O papel social inerente ao ato de Maternar e Educar um Ser humano.

Eu não preciso ser negra para acreditar no racismo.

Eu não preciso ser homossexual para acreditar na homofobia.

Eu não preciso apanhar para acreditar no feminicídio.

Eu sou brasileira, moro no Brasil, sou estudante de ciências humanas, sou uma iminente pesquisadora e psicóloga social, portanto, eu busco conhecer onde vivo e olho para os lados para ver todas as realidades tão diferentes da minha e, ao mesmo tempo, que estão tão interconectadas em mim, oriunda da rede social em que vivemos.

Tenho a obrigação, enquanto Mãe, alguém responsável por gerar a vida e formar um Ser humano justo, do bem, de caráter e consciente de revelar que existem muitas realidades diferentes da dela, e, que todas elas merecem respeito, que não há ninguém melhor do que ninguém, mas pessoas diferentes, que compõem a sociedade em que vivemos e para haver um mundo justo, pacífico e próspero, precisamos, antes de qualquer coisa, respeitar as diferenças e não humilhar e nem preterir ninguém.

A PretaLinda é só um simbolismo dentro da configuração em que vivemos. Mas, ela representa a diversidade real de etnias que compõem o nosso país.

E você, pai ou mãe, o que está fazendo para formar cidadãos justos, respeitosos e conscientes em suas casas?

E então, gostou? Me diga aqui no comentário.

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