Por que querem silenciar a voz da Filosofia & Sociologia na educação?

 

Consideração Inicial

O tema deste post deve-se a indignação pessoal com a proposta apresentada pelo Governo Federal, que frequentemente atua contra a educação e a construção de um pensamento livre e crítico dos cidadãos brasileiros.

Explicando um pouco a escolha da imagem e do filósofo escolhidos para discorrer sobre o assunto antecipo que falarei de Immanuel Kant e sua teoria da educação, onde acreditava ser por ela o caminho para elevar o homem a iluminação, ou seja, a sua evolução enquanto espécie humana. Por essa razão a foto da vela e também pelo fato de simbolizar a época do Iluminismo, onde a razão e o conhecimento começaram a prevalecer sobre a crença religiosa de que tudo o que ocorria com as pessoas e no mundo era devido a vontade divina (substituindo o teocentrismo pelo antropocentrismo).

 

A indignação tratada pela teoria da educação kantiana.

A capacidade de questionar, de se indignar com aquilo que foge à razão, dando escuta à angústia, gerada por tal sentimento, nos leva a refletir sobre o que é a razão? Na visão de Descartes ela é a essência do homem, e, a ela não cabe nada que fuja do controle do homem, portanto, as emoções devem ser desconsideradas e evitadas. Mas, como negar a emoção da angústia mediante imposições que confrontam os nossos valores? O que há para além da razão pura? É possível alcançar tal pureza de conhecimento? Para Kant, não. Em seu entendimento sobre a razão ele assume a premissa de que o conhecimento surge a posteriori a experiência, ou seja, primeiro nos relacionamos com o objeto e depois geramos o conhecimento sobre o mesmo.

Sendo assim, não há como alcançar um conhecimento puro, a coisa em si, apenas conseguimos conhecer o mundo mediante a forma com a qual nos relacionamos com ele, através dos fenômenos.

E a filosofia nos ajuda a construir essa relação com o mundo acolhendo a nossa angústia perante aquilo que nos fere a alma, que agride os nossos valores, que violenta a nossa moral. Nos induzindo a não ceder ao conformismo e a buscar expandir o conhecimento que temos sobre aquilo que nos acontece, sobre o que está ao nosso redor, em nosso cotidiano, e, a questionar tudo aquilo que não nos oferece um sentido de justiça e de verdade.

Para Kant, o homem só se faz homem por meio da educação, ora, se lhe privamos o direito à educação como irá constituir a sua identidade? Não irá.

Talvez resida neste exato ponto a intenção do Governo Federal em reduzir o investimento nos cursos de filosofia e sociologia, campos das ciências humanas que não geram retorno financeiro direto e imediato, mas, contribuem imensamente para elevar o homem a sua maioridade kantiana, sendo senhor de suas atitudes, tendo esclarecimento do que lhe afeta, com clareza sobre suas escolhas e não consentindo mais ao outro (o Estado) o poder de gerir seus pensamentos, seu comportamento e suas ações.

A filosofia kantiana defende a crítica as ciências ditas como pura, como a matemática, por acreditar que esse conhecimento advém da coisa em si, e, o pensamento de Kant contraria o preceito defendido por nosso Presidente, que julga como retorno a sociedade brasileira somente o ato de ensinar os cidadãos a fazerem contas. Restringindo assim a uma posição inferior a habilidade de criticar, confrontar, questionar, ou seja, de filosofar sobre aquilo que acontece na vida, na sociedade em geral.

Kant em sua ótica filosófica defende que a essência do homem é a sua capacidade de aprender, de evoluir, para que através disso ele se desenvolva e alcance o ideal de construir uma sociedade justa, igualitária e feliz. Isto diferencia o ser humano das outras espécies porque só a ele cabe a capacidade de pensar. Mas, diante dessa ideia utópica de sociedade ideal, podemos nos questionar, a quem nos dias de hoje interessa atingir esse ideal?

Certamente não ao atual Governo Federal, que deixa sempre evidente nas diversas tentativas de enfraquecer a essência kantiana do homem: a sua capacidade de pensar por si próprio.

Ao Governo atual é muito mais interessante manter os cidadãos em sua minoridade moral, sendo manipulado pelas políticas públicas que só visa aumentar a desigualdade econômica social (concentrando a riqueza na minoria da sociedade), permitindo que o Estado decida o que o cidadão deve estudar, o que fará após os estudos, onde deverá trabalhar e até quando (tudo isso pode ser visto nas reformas propostas pelo Governo).

Kant em seu discurso que enaltece o conhecimento não como algo central e independente da experiência humana, mas como um fenômeno construído a partir da relação do homem com o mundo, que defende uma filosofia transcendental, que não pretende transformar a filosofia em ciência, mas que sabe que a partir dela muitas ciências nascem. Ele acredita ser o homem evoluído por ter a capacidade de pensar por si próprio, tendo na educação o caminho para alcançar o seu potencial, através do conhecimento, do entendimento sobre aquilo que está posto no mundo, e, portanto, incentiva ao homem que busque pensar por si próprio para alcançar a maioridade moral, a autonomia, tornando-se esclarecido e capaz de aprimorar as futuras gerações de sua espécie e ajudando a construir uma sociedade cosmopolita ideal. Toda essa teoria vai de encontro a tudo que hoje vemos exposto nos diálogos dos três poderes (Legislativo, Executivo e Judiciário) e a sociedade civil.

O que percebemos em nossa sociedade brasileira são tentativas (e algumas já conquistadas) de manter o homem heterônomo, insipiente de seus direitos, refém daquilo que lhe é imposto pelos dogmas partidários e religiosos que diariamente busca uma forma diferente de subtrair do cidadão a sua capacidade de questionar e de pensar por si próprio. Manipulando-o através da mídia, com discursos de ódio e fake news, enfraquecendo o poder real da educação enquanto instrumento de revolução pessoal e social, fazendo com que as futuras gerações tenham cada vez menos interesse por se envolver com questões sociológicas e filosóficas, deixando-se levar por aquilo que a classe hegemônica defende como “o melhor para todos” em prol da família, da nação e de Deus.

 

Conclusão

A filosofia e a sociologia não podem ser abolidas porque tudo aquilo que vemos construído, todas as ciências exatas, médicas, humanas aplicadas só existem porque a sua origem se mantém firme nos pensamentos dos filósofos e sociólogos que colaboraram para que tivéssemos hoje essa estrutura de conhecimentos que regem o mundo contemporâneo.

Mas, como não deixar morrer a filosofia e a sociologia se nós não estamos sentados nas cadeiras dos planaltos, das câmaras e das assembleias?

Falando. Pensando. Dialogando. Criticando. Estudando. Não nos calando diante dos atos opressores que insistem em reger a nossa sociedade brasileira. Valorizando as ideias kantianas que defendia o homem como um ser evoluído por ter a capacidade de pensar, podendo atingir a maioridade sendo um homem esclarecido.

Aprender a aprender. Aprender a conviver. Aprender a ser. Aprender a fazer. São esses os pilares da nossa educação. E é com eles que iremos combater todo ato de opressão, censura, manobra e emburrecimento oriundos dos três poderes.

Enquanto houver violência, poderemos resistir, através do ato de filosofar.

Sapere aude!

(Ousai saber!)

 

Referências:

Carvalho, A. B., A Filosofia da Educação Kantiana: educar para a liberdade, UNESP

EXAME, “Bolsonaro sugere reduzir verbas para cursos de filosofia e sociologia.”, Disponível em: https://exame.abril.com.br/brasil/bolsonaro-sugere-reduzir-verba-para-cursos-de-filosofia-e-sociologia/. Acesso em 02/06/2019.

Gadotti, M., Pensamento pedagógico brasileiro, 1988, Ed. Ática

Kant, I., Crítica da razão pura, Grupo Acrópolis (http://br.egroups.com/group/acropolis/)

Um comentário

  1. Luiz Shigunov

    Muito interessante.

E então, gostou? Me diga aqui no comentário.

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