A régua dos próprios filhos

 

Depois que me tornei mãe novos sentidos se abriram para mim e eu mudei diversas perspectivas sobre a vida. Dentre esses novos sentidos a minha escuta foi uma das mais sensibilizadas, comecei a prestar mais atenção a conversas que por muitas vezes me pareciam inofensivas, até mesmo trivial a todos nós.

Mas, nesse universo chamado maternidade um novo código de conduta e de formas de se relacionar conosco e com os outros se apresenta, então, comecei a reparar no que e em como as mães falavam umas com as outras sobre seus filhos.

A primeira pediatra da minha filha, em um curso de cuidados com o bebe que participei disse que nós, gestantes, precisaríamos entender que após o nascimento dos nossos filhos toda a fase do desenvolvimento, primeira e segunda infância principalmente (que varia dos 0 aos 6/7 anos) era para ser vivida com o máximo de cuidado, afeto e leveza possível, cobranças e pressões nada disso serviria para nos ajudar, muito pelo contrário, só iria atrapalhar a maternagem e o desenvolvimento da criança. Ela exemplificou que as mães costumam comparar os seus filhos com os das outras em uma competição de quem mamou no peito por mais tempo, de quem o umbigo secou mais rápido, com quantos meses começou a engatinhar, quem desfraldou antes de quem, quantas palavras o seu falava com um ano e por aí vai as infinidades de comparações. Eu confesso que ri quando ouvi isso e pensei que era total exagero dela, até mesmo porque ninguém é igual e toda a literatura especializada e os profissionais que eu consultava diziam que cada criança tem o seu tempo, os marcos são apenas referências, médias, não regras exatas. Ela ainda brincava dizendo que ninguém pediria no currículo dos filhos quando adultos essas informações sobre as fases de seu desenvolvimento infantil para analisar em uma possível entrevista de emprego.

Ri antes e quebrei a cara depois! Porque quando a minha filha nasceu e eu comecei a frequentar esses ambientes e a reparar no diálogo que a grande parte das mães estabeleciam constatei que a pediatra estava certíssima! É uma comparação insana! Infindável! Que não serve de nada.

Toda criança recebe do SUS a caderneta de saúde ainda na maternidade, nela existem alguns marcos para cada fase do desenvolvimento do primeiro ano que servem como um referencial para orientar a análise do desenvolvimento de cada criança pelos cuidadores e os pediatras. Nem sempre a minha filha cumpriu todos, nem sempre os gráficos nas consultas pediátricas acompanhavam o modelo ideal, e não havia nenhum problema, porque nunca ficou fora das margens de segurança para a saúde que os pediatras indicam. Portanto, não havia com o que me preocupar.

Estar em uma roda de mães que só falam de fraldas, comida, remédio, doenças, quem fez o quê e quando, ver mães que enaltecem os filhos das outras e não se lembram de fazer ao menos um elogio aos seus, me faz sentir que não me encaixo nesse universo. Talvez todo o estudo que realizei desde a gestação, o aprofundamento do conhecimento acerca do desenvolvimento humano que adquiro na graduação de psicologia, tudo isso me faz ter um olhar e uma escuta muito crítica, que não cabe nesses espaços de rivalidade, nesse modo de medir a evolução dos próprios filhos com a régua do filho da outra pessoa. A sensação que tenho é que essas mães precisam provar a si mesmas que são as melhores e não podem assumir que erraram, que erram e vão continuar errando. Parece que a vaidade é usada para recalcar a culpa por não ter buscado aprender mais e também por não conseguir admitir que poderiam ter feito diferente e, pior, que ainda podem melhorar, basta aprender.

A você que é mãe e na sala de espera dos consultórios pediátricos repara mais no filho da outra do que no seu, pare, silencie, apenas olhe para a sua criança, lembre de cada momento da gestação, do parto, do que você sabia até então e vá construindo a régua do SEU próprio filho. Cada avanço precisa ser comparado com o momento atual, o passado e o futuro dele. Não o compare com o filho da outra porque cada criança é uma criança. Assim como você é uma mulher diferente da mãe do lado.

O tempo que você perde comparando o seu filho com o da outra, é um tempo desperdiçado, onde você perde a oportunidade de observar, aprender, conhecer mais do seu filho e de si mesma. Aquilo que ainda não souber como fazer na criação dele, busque ajude de profissionais da área, busque literatura de qualidade, saía desses blogs de pessoas que só compartilham o que deu certo com seus próprios filhos porque elas só tem a visão das suas próprias crianças, diferente de um pediatra, um neuropediatra, um psicomotricista, um psicólogo, uma pedagoga, que estuda as mais diferentes formas de ser de cada criança e pode oferecer uma orientação adequada as necessidades da sua criança.

Menos comparação.

Mais observação, valorização, afeto, liberdade e respeito.

Para termos um mundo melhor, precisamos deixar nele pessoas melhores.

Essas pessoas serão as nossas crianças.

Luz na caminhada.

 

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