Conversas em tempos de Pandemia

Quando saí do isolamento.

A quarentena para mim começou em 13 de março deste ano. Moro em um bairro residencial e desde então eu evito sair de casa. Para comprar algum alimento vou nos pequenos comércios da redondeza mesmo e bem raramente. Ontem resolvi ir a um hipermercado no bairro vizinho para comprar roupas de frio para a minha filha porque as delas estão ficando curtas.

Pensei assim: vou a noite, no horário de menor movimento, com minha máscara e só eu e meu marido. Irei comprar apenas as peças de roupa que preciso e venho embora, acho que tudo bem.

Saímos. Pelas ruas um movimento relativamente comum para a época fria do ano. Ao entrar no estacionamento muitos carros como sempre em um sábado a noite.

Tirando a máscara nada me lembrava muito que estamos em quarentena. Até que fui caminhando para entrar no estabelecimento e me deparei logo na porta de entrada com um funcionário de máscara e dois termômetros nas mãos e verificava a temperatura de CADA pessoa antes de entrar. [Primeiro espanto!]

Entramos. E um pouco adiante outra funcionária parava cada cliente e espirrava álcool em gel em nossas mãos e borrifava uma solução nas barras dos carrinhos para só assim liberar a nossa entrada de fato. [Segundo espanto!]

Fomos direto para a seção de roupas infantis, olhava para os lados e muitas prateleiras vazias, TODOS no mercado de máscara (outra exigência do mercado). Comecei a perceber uma sensação estranha em mim, olhava para os lados e parecia que a vida seguia normal, famílias inteiras comprando (pai, mãe, dois filhos), as crianças corriam pelo mercado tocando em tudo normalmente, um ou outro canto tinha mais álcool em gel disponível e um cartaz lembrando da importância de higienizarmos as mãos. [Terceiro espanto!]

De repente uma angústia apertou o peito e o pensamento que não saía da minha mente era “O que você veio fazer aqui? Vá pra casa! Você não tinha que estar aqui.” – eu e meu marido logo vimos que não havia o que queríamos e decidimos vir embora. Aflitos e desconfortáveis andávamos pelos corredores buscando algum vazio sem encontrar e caminhamos em direção aos caixas para pagar os alimentos que compramos (porque já que nos expomos que comprássemos logo o que faltava para evitar ter que ir de novo ao mercado).

Chegando no caixa havia uma promoção de compra solidária optamos por fazer e a funcionária nos disse que não sabia como proceder e chamaria outro funcionário porque nunca tinha feito esse procedimento. Então, esperamos, esperamos, e nada de outro funcionário aparecer. Aquela sensação de aflição aumentando e optamos por desistir da doação e viemos logo embora.

Saí de lá com duas sensações muito ruins:

a) Eu costumava ir semanalmente aquele lugar para fazer compras, me distrair, passear com a família e era sempre um momento alegre. Não foi nada disso que senti. Foi bem triste posso afirmar.

b) Quantas pessoas deixam de doar para ações como essa por despreparo dos funcionários? Qual a responsabilidade social, que de fato o estabelecimento empenha que se propõe a divulgar uma ação de solidariedade e não treina os funcionários? Quantas pessoas estão passando fome e poderiam não estar caso essas empresas fossem mais responsáveis e comprometidas?

Decidi que qualquer necessidade que não seja de alimento ou saúde será postergada para quando for seguro sair à rua.

A vida não está normal. Podem até tentar disfarçar abrindo comércio, voltando com o transporte público normalmente, mas, não, não se enganem, há um perigo gigante lá fora chamado coronavírus, que ninguém ainda consegue dar conta. Com a flexibilização da quarentena a gente precisa se cuidar muito mais. Esse inimigo é invisível e é muito maior do que a gente, não vale a pena correr o risco de brincar com ele.

Me arrependo muito de ter saído do isolamento. Aprendi a lição. E reforçarei o meu resguardo e daqueles que amo.

Se você puder, por favor, fique em casa. Não está bom lá fora.

Luz, Amor e Cura em nossa caminhada.

Que a Terra se cure de todo mal espalhado por aí.

Um comentário

  • Luiz Shigunov

    Eu tb vejo que não está normal. E acho muito importante os hipermercados fazerem isso de higienizar os carrinhos e as mãos de quem entra. É um custo, mas ajuda muito no combate ao vírus.

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