Conversas em tempos de Pandemia

Leitura indicada para tempos de pandemia – Ailton Krenak.

Olá a todes!

 

Mais de 6 meses se passaram desde quando começou essa pandemia da Covid-19 no Brasil. E parece que não avançamos nem um milímetro no tratamento, no controle e nem na cura, né?

Tentando cuidar da minha saúde mental eu optei por ver menos noticiários e ler mais livros.

Por isso, vou começar a compartilhar aqui com vocês os livros que li sobre essa pandemia e a minha opinião sobre eles, quase todos são gratuitos. Vou deixar o link no final do texto.

O primeiro que quero compartilhar é esse, O AMANHÃ NÃO ESTÁ À VENDA, do Ailton Krenak – um líder indígena, jornalista, ativista pelos direitos indígenas, reconhecido internacionalmente, sua comunidade Krenak (de etnia de mesmo nome) fica localizada em Minas Gerais, a margem do rio Doce, aquele devastado pelo crime ambiental da Vale do Rio Doce (2015), se lembram?

O primeiro livro que li desse autor foi o IDEIAS PARA ADIAR O FIM DO MUNDO, que questiona o conceito de humanidade criado pelos brancos no ocidente. Ele provoca ao perguntar se tamanha desigualdade social existente no mundo, onde há um abismo existencial e de possibilidades entre os seres humanos de distintas classes sociais, se ainda sim poderíamos nos denominar: humanidade?

Eu, sinceramente, concordo com Ailton,  NÃO, estamos muito longe de sermos todos reconhecidos como humanos.

Mas, voltando ao livro indicado, O AMANHÃ NÃO ESTÁ À VENDA, faz uma reflexão filosófica, profunda, sensível e realista a partir de toda a história de luta e resistência vivida por Ailton e toda a sua ancestralidade indígena.

Alguns dos trechos que mais me marcaram foram esses:

“O mundo está agora numa suspensão. E não sei se vamos sair dessa experiência da mesma maneira que entramos. É como um anzol nos puxando para a consciência.”

Quando li essa frase este ano de 2020 se materializou para mim com muita clareza, ele está suspenso! Não é como uma tsunami que vem, lava tudo, escorre as águas, volta para o mar e nos deixa aqui cientes do que precisamos fazer para recomeçar, olhando o resto do mundo e vendo que tudo permanece igual, portanto, daqui, de onde estamos é o ponto do recomeço e sabemos como fazer.

Não, não teve uma grande onda que destruiu uma parte do mundo, o que vivemos é uma névoa, invisível aos olhos, um perigo constante, que está solto pelas ruas, podendo estar em qualquer lugar, podendo vir através de um pacote de entrega dos Correios ou uma maçaneta da porta do escritório ou a barra de segurar do ônibus ou metrô lotado. O novo coronavírus está pelo mundo todo solto, vagando, circulando, sem dizer quando ao certo chegou e muito menos sinalizar quando nos libertará de sua ameaça de morte constante.

Dói ler isso? Espero que doa, porque escrever cada uma dessas palavras me consome por dentro e gera uma angústia sufocante! M-E-D-O é o que tenho. E mais ainda, por todos os seres humanos que NÃO TEMEM a Covid-19 e seguem indo a bares, restaurantes, sem nenhuma preocupação e nenhum cuidado consigo e com o próximo.

Eu acho que é dessa dor, desse medo que Ailton fala ao dizer que um anzol nos puxa para a consciência, afinal de contas, despertar para uma nova consciência é um processo sofrido, aceitar que estamos cada um de nós conectados e tem um vírus encontrado no interior da China, que em poucos meses circulou e alcançou as camadas mais pobres dos países periféricos, como o nosso Brasil, e, até mesmo as tribos indígenas mais isoladas é assustador.

Ailton conclui o livro dizendo:

Tomara que não voltemos à normalidade, pois, se voltarmos, é porque não valeu nada a morte de milhares de pessoas no mundo inteiro. Depois disso tudo, as pessoas não vão querer disputar de novo o seu oxigênio com dezenas de colegas num espaço pequeno de trabalho. As mudanças estão em gestação. Não faz sentido que, para trabalhar, uma mulher tenha de deixar os seus filhos com outra pessoa. Não podemos voltar àquele ritmo, ligar todos os carros, todas as máquinas ao mesmo tempo.”

 

Esse trecho é tão impactante para mim, principalmente, quando traduzo em números, hoje, 3 de setembro de 2020, são esses os números do Brasil:

124.057 MORTES NO BRASIL POR COVID-19

No mundo,

852.758 MORTES NO MUNDO POR COVID-19

 

A população brasileira está estimada em quase 212 milhões de pessoas no país, segundo o IBGE, então, talvez você pense como o presidente do país que não é tão alto o número assim, somos muitos, somos milhões, e, vai morrer gente mesmo, vai morrer de qualquer jeito… lamento demais se esse é o seu pensamento, pois, isso só demonstra o quão alienado você ainda está em relação a maior crise sanitária, humanitária e de saúde que vivemos na história do Brasil.

E digo mais, se você ainda não se sentiu, em nenhum dia sequer desde quando tudo isso começou, um pouco afetado material e emocionalmente por essa pandemia, por favor, baixe agora o livro e leia, leia quantas vezes forem necessárias até que o anzol alcance a sua consciência e lhe liberte dessa alienação que só traz uma falsa sensação de segurança, porque contra o novo coronavírus não há nenhuma força de proteção 100% segura.

Que a gente repense o nosso antigo modo de viver, focado em trabalho-para-pagar-boleto-e-viver-no-fim-de-semana-depois-trabalho-pra-pagar-mais-boleto-ate-morrer, pois, não estava bom, nada bom. O egoísmo que em algum grau tomava as nossas vidas fez com que essa pandemia se alastrasse com toda essa força e poder de destruição: de vidas, da economia, dos sonhos.

Cuidar mais daquilo que realmente importa: nossa saúde, nossa vida, nossos familiares, nosso tempo, buscar nossos direitos, adquirir conhecimento para não depender de político para dizer quem pode viver e quem deve ser deixado para morrer, lutar, com consciência e sabedoria para não sucumbir a esse modo de vida capitalista que nos coloca no piloto-automático e só nos damos conta disso no fim da vida. Acredito serem essas as lições que cada ser humano precisa aprender, para mudar suas atitudes, e, pensar mais coletivamente. E então, depois de sobrevivermos a essa pandemia, quem sabe, dessa vez, aprendamos e possamos, de fato, ser nomeados de humanidade.

Obrigada Ailton, por cada palavra que me encheram de esperança, conhecimento e fortaleceram o anzol da minha consciência me afetando e me encorajando a resistir!

 

E se você se interessou pelo livro e quiser ler clique aqui.

 

Que haja CURA, PAZ, SABEDORIA a toda humanidade para vencermos a pandemia.

 

 

As fontes utilizadas para esse texto foram essas:

  • https://www.unifor.br/-/entrevista-nota-10-ailton-krenak
  • https://noticias.uol.com.br/ultimas-noticias/bbc/2020/02/24/lama-que-brilha-e-reacende-traumas-do-desastre-de-mariana-para-moradores-da-bacia-do-rio-doce.htm
  • https://g1.globo.com/bemestar/coronavirus/noticia/2020/09/03/casos-e-mortes-por-coronavirus-no-brasil-em-3-de-setembro-segundo-consorcio-de-veiculos-de-imprensa.ghtml
  • https://www.paho.org/pt/covid19
  • https://www.ibge.gov.br/apps/populacao/projecao/box_popclock.php
  • https://noticias.uol.com.br/colunas/leonardo-sakamoto/2020/06/02/bolsonaro-volta-a-dizer-que-morrer-e-normal-no-dia-que-obitos-batem-recorde.htm

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