Conversas de Mãe

Avó Materna – o vínculo ancestral.

Olá Mulheres,

Hoje o texto é dirigido a vocês exclusivamente porque quero conversar sobre esse vínculo ancestral feminino que temos com as nossas mães e as mães de nossas mães, nossas avós.

A minha avó materna era a representação real de todo o estereótipo de vovó que vemos nos livros infantis, nos desenhos, no sítio do pica-pau amarelo e em todas as referências lúdicas mais comuns: gordinha, cabelo grisalho, vestido florido, chinelo de pano, com talco de alma de flores, pele delicada, que fazia doces maravilhosos, que costurava roupas para as minhas bonecas, de fala doce, colo de aconchego, abraço suave e que eu amava estar por perto, mas só a via em alguns finais de semana e nas férias.

Vovó morava na região serrana e tinha a saúde frágil. Era comum durante o inverno vê-la acamada com crises de bronquite. Por conta disso as nossas brincadeiras eram poucas, as minhas maiores memórias afetivas é da minha avó interagindo na cozinha, na varanda, na sala conversando com minha mãe, minhas tias, e eu ali só escutando. Outra lembrança quentinha e cheia de alegria é de ficar deitada em sua cama após o almoço e escuta-la ouvindo a Patrulha da Cidade na rádio Tupi! (Sim vovó era fofa mas adorava ouvir histórias tensas…rs…na adolescência a diversão dela era ir aos cemitérios com as colegas da escola e ‘visitar’ as covas..rsrs… tá, vovó não era tão convencional na juventude assim.)

Fazia uma comida deliciosa, um cuscuz que ninguém no mundo faz igual, amava um chocolate, mingau de farinha láctea e café-com-leite.

Além disso, foi minha avó quem ensinou meu avô a ler e a escrever quando se conheceram ainda adolescentes. Uma vida construída em conjunto por mais de cinco décadas, com 7 filhos, 4 netos e hoje 2 bisnetas! Que orgulho me dá só de lembrar e escrever cada palavra dessas.

Você que me acompanha por aqui sabe que quando engravidei vivi um turbilhão de altos e baixos, sonhava em ser uma mãe exemplar como a minha mãe, e, na gestação a primeira decepção: parto cesáreo ao invés de natural por conta da gravidez de alto risco (se quiser ler mais sobre isso clique aqui). E assim fui me percebendo como mãe tendo a minha como um grande e importante referencial, mas sem conseguir ser como ela.

A presença da minha mãe em minha vida sempre foi/é/será fundamental e me tornar mãe tendo o apoio, o aconselhamento, a prática, a sabedoria dela todos os dias me ajuda (e muito) a ser uma mãe melhor. A minha filha é completamente encantada pelos avós, a ‘vovozinha’ é a paixão dela. Depois que passamos a morar próximas, a minha filha tem a infância que eu sempre desejei para mim: vai todos os dias a casa dos avós. E o dia que não vai reclama, sente falta e pergunta logo ‘mamãe, eu não vou pra casa da vovó hoje?’.

Minha mãe é potência pura. Uma avó moderna: magra, dinâmica, conectada, curiosa, produtiva e está sempre em movimento, uma verdadeira peregrina nessa experiência humana em que vivemos. Professora infantil da rede pública por mais de 30 anos, onde desenvolveu um trabalho transformador indo para além das condições que o sistema educacional lhe proporcionava, fazendo a diferença positiva na vida de seus alunos. Após se aposentar e curtir uns anos de descanso, ela opta por iniciar o artesanato e desempenha com maestria essa nova atuação, em seguida caminha em direção a estética facial e engrena em cursos, jornadas, oficinas em busca de aperfeiçoamento profissional. Depois de uma crise de saúde, minha mãe decide mergulhar fundo nessa sua nova paixão e através da psicoterapia e do coaching ela segue firme e abre o seu próprio espaço lá na cidade onde meus avós moravam e hoje é residência da minha tia. Mas, no meio dessa inauguração a minha filha nasce e mamãe se vê dividida entre a estética, o lar e esse novo papel que nasceu junto com minha filha: a de avó.

Eu opto por me mudar em busca de qualidade de vida e meus pais em seguida encaram esse desafio em me acompanham. Sou profundamente grata a eles por serem tão corajosos e determinados, hoje moram aqui, na rua de casa, uma delícia e total benção em nossas vidas.

Então, minha mãe decide resgatar um sonho antigo: a costura. Depois da gente procurar muito ela encontra uma professora particular, a Graça (tenho certeza que não tem esse nome em vão) que inicia a minha mãe nos primeiros passos da costura profissional. De repente, pandemia, distanciamento social, e, assim por cautela e segurança minha mãe suspende as aulas por ser em outro bairro e não querer se expor no transporte público.

Mas, como eu sempre digo, quando a gente deseja algo do fundo do nosso interior, a vida se encarrega de trazer para perto. E assim, minha mãe retoma o contato diário com minha tia, costureira profissional, da qual não convivíamos fazia algum tempo. E utilizando das tecnologias de forma inteligente, ela começa a ser mentorada pela irmã e estudando via youtube, lives no instagram, fazendo mini cursos, ela persiste em seu objetivo: fazer um vestido para a neta. E eis que essa belezura que trago na imagem do post de hoje se materializa após muitos dias e noites de faz-e-refaz, estuda, apaga molde, risca, costura, descostura, mede, e, com muita disciplina e determinação ela consegue atingir o seu objetivo!

Talvez possa passar como algo comum para alguns, mas a mensagem que ela transmite a minha filha é a de que a vovó pode, você também pode alcançar o que desejar! Assim como ela compreende ao me ver estudando, em reuniões, escrevendo e entende que estudar é muito bom, deixa a mamãe feliz e assim ela vai criando os próprios referenciais acerca dos estudos e do trabalho. Esse é o poder da ancestralidade feminina, que vem de útero para útero, que vem de geração para geração, que é muito melhor quando se vive na mesma vida a criação desses laços, dessa memória, desses ensinamentos que não são falados, mas experimentados, interiorizados, registrados nos pequenos gestos da vida diária.

Eu não seria a mãe que sou se não tivesse essa mentoria da minha mãe, com sua vivência de magistério, de ser a filha mais velha que cuidou dos mais novos, de ser mãe, madrinha e avó!

Tenho tanto orgulho e tanta admiração pela minha mãe que não há palavras suficientes para materializar.

E quis escrever hoje para você, mulher, que tem uma boa mãe como a minha e deseja se tornar mãe também. Avalie a sua vida, suas prioridades, suas escolhas e busque realizar esse seu sonho enquanto a sua mãe estiver ao seu lado com saúde e disposição para vivenciar contigo essa experiência desafiadora, transformadora e disruptiva chamada: maternidade.

Minha sogra, uma avó exemplar que apoia a minha cunhada no cuidado com as netas, me disse um dia:

“Sabe Carol, a idade pesa, até os setenta eu cuidava das meninas e não sentia, mas depois passei a sentir o cansaço. Então, para as suas amigas que querem ter filhos e podem contar com a mãe delas, diga para que busquem ter antes das mães chegarem aos setenta anos porque a gente começa a sentir o peso da idade.”

Diante de tanta sabedoria, eu fui afetada por cada palavra dita e passei a olhar mais de perto, com mais gratidão por ter a minha mãe com essa disposição de se reinventar junto de mim, da minha filha, construindo essa ancestralidade diariamente, na vivência do cotidiano, compartilhando cada situação que passamos juntas.

Mãe, obrigada por T-U-D-O você é meu orgulho!

A você querida leitora que tem uma boa mãe como a minha, como minha sogra, como minha avó permita-se viver a experiência da maternidade enquanto a sua mãe puder viver junto contigo cada desafio dessa incrível e assustadora passagem de nossas vidas que é maternar.

 

Saúde, Cura, Sabedoria, Luz e Paz a toda humanidade.

 

2 Comentários

  • Luiz Shigunov

    Lindo texto. Poder conviver com os avós diariamente é uma experiência única e muito bonita.

    A dica final é muito boa e não só para os avós. Filho da trabalho e cansa muito, então se vc quer ter, tenha o quanto antes!

  • Janyr Gomes da Silva de Souza

    Obrigada filha. Mas com certeza ainda estou longe de ser igual a Mãe que Deus me deu de presente. Com ela aprendi o real sentido dessa palavra tão pequena mas que é tão grande no amor que a nutri. Um dia disse a mim mesma,”se Deus me der a benção de ser avó nessa vida , quero ser para minhas netas (os) a vovó que minha mãe foi para a minha filha.
    Fui então abençoada com essa menininha que amo mais que tudo na vida e que quero continuar sendo sempre a vovozinha que ela tanto ama. Agradeço a Deus a dádiva de ser sua mãe e a de ser a vovó do meu bebê. ❤❤

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