Conversas sobre a sociedade

O anti-feminismo como forma de fortalecer o patriarcado. Um desabafo de uma oprimida privilegiada que despertou.

É sabido que as mulheres sofreram muitas perseguições ao longo da história. E ainda sofrem, pois apesar de seus corpos nascerem livres, passaram a ser privatizados ao logo da história. E falo privatizado no sentido mais amplo e literal que a palavra pode ter. Propriedade privada, administrado, controlado.

Eu tive um bom pai, desses que até levam e buscam em boates, que participam de toda a vida e sabem de tudo, como um amigo.

Em 2007 meus pais se separaram e minha mãe trabalhava em outra cidade. Por muitas razões eu e meu irmão ficamos morando com o meu pai, mesmo indo praticamente todos os finais de semana para a casa da minha mãe. Então, quando eu defendia os homens, eu pensava neles comigo e neguei o feminismo na tenra idade.

Não era meu assunto, mas quando eu ia a casas de samba com o meu irmão, ele só me levava se fosse no camarote porque na “muvuca” ele não ia ficar sossegado porque iam mexer comigo.

Dessa forma, quando ele não conseguia vaga para comprar o camarote, eu não ia. E mesmo quando eu ia e ficava só com ele e nossos amigos no camarote, se por algum motivo ele saísse e eu quisesse ir ao banheiro, os amigos dele me levavam. Mas na grande maioria das vezes ele fazia esse papel e como somos fisicamente muito diferentes (branca x moreno), todo mundo achava que éramos casal. No momento em que eu negava, as mulheres o elogiavam muito. Era um grande gesto! Era sim, eu também curtia.

Mas seria necessário isso se os homens em casas de samba ou quaisquer outros lugares agissem normalmente sem agarrar as mulheres? Não, não seria e seria o ideal, o mínimo que merecemos é respeito. Como não respeitavam, ele tinha que fazer isso, me levar até a porta do banheiro, me esperar e voltar comigo. E isso eu já com 20 e poucos anos!

Assim, eles sempre me buscaram na faculdade, no curso de espanhol, no inglês, na casa das amigas, etc. Se o meu pai não podia ir, o meu irmão ia, e eu achava aquilo um máximo até começar a repensar que eles faziam isso porque o meu corpo não é livre de verdade, mas é controlado por uma sociedade machista onde homens oferecem perigo.

Lembro como se fosse hoje, eu consegui um estágio por volta de 2008 com uma bolsa de R$ 1.000,00 (mil reais) e fiquei muito feliz. Era muito dinheiro para mim na época, mas eu teria que mudar a faculdade para o período da noite e o meu pai foi contra. Foi contra porque eu moro em Niterói, cidade vizinha da capital do Rio de Janeiro.

E foi lá, na capital do Rio, que sumiu a irmã de um lutador famoso, quatro anos antes. O meu pai foi contra mesmo, me proibiu de ir porque ele não poderia me buscar lá. Naquela época não existia uber, os telefones celulares não eram tão bons e muitas vezes ficávamos horas aguardando um táxi. Quando chovia era impossível achar um táxi. Eu não fui. Eu poderia ir contra o meu pai, mas depois comecei a pensar nos argumentos dele e tive medo de ir, ele tinha sim razão. Eu me prejudiquei pelo fato de ser mulher e vulnerável. A minha carreira foi prejudicada porque eu sou mulher. Não foi o meu pai propriamente dito, foi a sociedade machista e cruel com as mulheres. Uma sociedade em que mulheres somem no horário de almoço no centro da cidade! Com exclamação sim, para quem ler carregar todo o drama que isso envolve. Até hoje penso no que aconteceu com aquela menina, na família dela, na dor insuperável.

Anos mais tarde, em 2017, fiz pós-graduação no centro da cidade (RJ) e nessa época eu já trabalhava, mas ainda morava com o meu pai (moro até hoje). Ele me esperava na parada do ônibus em Niterói para caminhar comigo para casa. E quando comecei a atravessar a baia de Guanabara de barcas e pegar uber até a casa, em um determinado dia senti um homem andando atrás de mim. Congelei de medo e apressei os passos até parar em uma carrocinha de cachorro-quente. E ali disse o que estava acontecendo, a dona me deu uma cadeira e pediu para o ajudante dela me levar nas barcas depois que ele terminou um serviço. Depois disso comecei a esperar um amigo sair do trabalho às 23h para me levar nas barcas. Ele trabalhava no mesmo prédio da pós.

O uber revolucionou a minha vida, mas ainda assim é um risco. Senhas distribuídas, compartilhamento de localização, print do motorista e placa do carro… Quantos homens fazem isso? Eu arriscaria dizer que nenhum.

Portanto, comecei a perceber algo que começou a me incomodar demais: Eu só era respeitada porque tinha a presença de dois homens em casa. Dois homens que andavam comigo, que eram meus “guarda-costas” e quando eles não estavam, eu estava insegura. E isso era um absurdo!

O meu irmão é mais novo do que eu e tinha mais liberdade. Não dada pelos meus pais, que nos criaram igual, mas a exercida na sociedade. Ele andava pelas ruas de noite sem o menor problema ou medo. Trabalhava sem nunca ter sofrido nenhum tipo de assédio. Qual era a diferença entre nós? Eu nasci mulher, para a minha tristeza e razão da minha luta.

Ser mulher é ter que lutar pela sua integridade física todos os dias. E eu só comecei a entender essas pequenas coisas quando tive contato com o movimento feminista, apesar de ter sofrido algumas coisas que a minha família não conseguiu me proteger, como um relacionamento abusivo em que nunca apanhei, mas sofri de outras formas.

Mas sempre foi a minha família que tinha um radar para quando as coisas não estavam bem e me lembrava do meu valor, e me dava forças para estar onde eu era amada de verdade, não em status. O meu pai até me levou de carro na casa de um ex para eu terminar com ele. E a minha mãe algumas vezes pegou o telefone para dizer “poucas e boas”. (Podem rir, eu estou rindo enquanto lembro.)

Eu fui privilegiada por ter uma família que me protegesse? Sim. Mas sabe o que veio antes disso? Por volta dos meus cinco anos o meu irmão chegou à casa da brincadeira na rua com outras crianças dizendo: “Mamãe, eu acho que X* está com fome, ele disse que quando Vanessa crescer vai comer ela.” (sic) A confusão se instaurou na rua, e logo nos mudamos.  A minha mãe conta até hoje que nunca sentiu tanto medo.

Passado o tempo, com 12 anos mais ou menos, no bairro de São Domingos, em Niterói, onde residia a minha bisavó, por duas vezes tentaram me agarrar. Havia naquele bairro uma praça chamada Cantareira, onde muitos jovens que se reuniam para beber. Não que a bebida justifique porque não justifica.  Estávamos eu e a minha mãe, e ela se atracou com um dos homens, e me puxou rápido na outra vez. A minha mãe tinha que se proteger, também tinha que me proteger.

Alguma vez algum homem passou por algo parecido?

Ainda me recordo de uma festa em um local dito “bem freqüentado” em Niterói, onde um rapaz ficou o tempo todo me puxando e fui acionar o segurança que me disse que ele era de família importante, logo não poderia fazer nada. Eu tive que me retirar da festa que paguei para entrar porque um garoto mimado não poderia ser incomodado, mas ele me incomodar era normal.

Hoje, nós, mulheres, temos voz, mas quantas vezes sofremos assédio moral no trabalho ou não consideram nossas opiniões? Quantos chefes não gritam conosco de maneira como jamais fariam com um homem?

Quantos chefes, professores e várias outras pessoas (HOMENS) não abusam dessa hierarquia para nos assediar sexualmente só pelo fato de sermos mulheres e nos virem como objetos, como pessoas inferiores que devem ceder às suas investidas, insistências?

Quantos homens em relacionamentos com mulheres não as tratam mal e são tóxicos praticando algum tipo de agressão (física, moral, psicológica, sexual ou patrimonial e econômica)?

Ser feminista, portanto, é lutar pela nossa liberdade no sentido literal dessa palavra. Ser liberta, ser dona de si, do seu corpo, da sua fala, das suas vontades. SER FEMINISTA É PODER ESCOLHER SER E FAZER O QUE QUISER! E lutar por esse direito.

Mesmo com alguns avanços e conquistas como voto, escolaridade e trabalho, ainda que estejamos “ao lado dos homens”  somos subjugadas, desmerecidas, objetificadas. E a história vem se repetindo.

Durante a Revolução Francesa aos gritos de “liberdade e fraternidade”, um grande nome foi silenciado; Olympe de Gouges. A primeira feminista a ser guilhotinada. Olympe defendia a emancipação das mulheres, o divórcio e o fim da escravatura em uma revolução feita por homens onde praticamente nada se falava sobre as mulheres. Pouco se fala sobre essa grande mulher, mas ela lutou por cada uma de nós, e antes de ser executada, a feminista disse: “Se a mulher tem o direito de subir ao cadafalso, ela deve ter igualmente o direito de subir à tribuna.”

Vale ressaltar que Olympe sequer teve direito a um advogado e se isso não te toca, volte e leia novamente, por favor.

Eu trabalhei na política e vi de perto como homens que dizem lutar por nós nos calam no nosso trabalho, não nos reconhecem e nos eliminam quando se sentem incomodados ou desagradados.

O que podemos tirar do que Olympe disse nos dias atuais? Se podem nos julgar, ditar como devemos nos comportar, também podemos nos rebelar, lutar e combater o patriarcado.

Vale lembrar que nos meados dos séculos XVI as mulheres foram literalmente domesticadas e quando se expressavam tinham que usar uma rédea de ferro e eram levadas para andarem pela cidade pelo seu marido como forma de castigo. Eram chamadas de “resmungonas”.

A luta é por mim, por você, por todas as mulheres que vivem e vão nascer, mas principalmente em memória de cada mulher que teve a sua vida retirada por lutar por nós.

Se hoje temos voz, agradecemos a mulheres como Olympe e temos que falar até que todas se conscientizem, até que todos os homens nos respeitem, até que sejam tratadas com igualdade.  A luta das mulheres que nos fizeram chegar até aqui não é em vão porque a gente segue lutando.

E para as mulheres que não despertaram ainda, que esse meu relato toque vocês de alguma maneira porque eu demorei a despertar e fui acolhida, mas nós lutamos também por vocês.

O anti-feminismo fortalece o patriarcado que nos silencia e mata, o feminismo nos salva. Eu tenho tanto mais para falar, mas por hoje fico só com o meu o relato de uma privilegiada (reconhecendo o meu lugar e a minha família) que acordou e que está lutando também pelas mulheres porque pelas crianças o meu histórico é longo.

Assim me apresento nesse blog, agradecendo a oportunidade de fazer parte dele.

Vanessa Raibert

 

Um comentário

  • Luiz Shigunov

    Lendo o teu relato fiquei pensando como nossa sociedade é machista e não protege as mulheres.

    Situações como essas que vc relatou do teu irmão ou amigos terem que estar com vc para te proteger passam desapercebidas e são até naturalizadas: não geram espanto, revolta ou indignação.

    E se olharmos com outros olhos são absurdas porque mostram toda a violência que as mulheres podem sofrer e sofrem.

    Parabéns pelo relato e pela coragem de falar sobre isso.

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