Conversas sobre a sociedade

Nós não estamos estressadas, nós estamos cansadas.

Não sei se vocês já repararam, mas nesse esquema de pandemia as mulheres estão vivendo as suas jornadas múltiplas interminavelmente (já temos 9 meses de pandemia!!).

Mulheres estão vivendo 24h por dia, nos 7 dias da semana, exercendo o seu papel de mãe, profissional, dona de casa, esposa, filha, estudante e todas as suas outras mil responsabilidades concomitantemente, sem folga, sem escape, na pressão diária.

O trabalho doméstico não acaba nunca, vocês sabem. Ela acaba de organizar a casa, vira para o lado esquerdo e vê uma roupa jogada, anda para a cozinha e no meio do caminho se depara com brinquedos espalhados no chão e machuca o pé, volta para o escritório e o whatsapp com mil mensagens para responder. Um dia comum na vida de grande parte das mulheres do Brasil.

Eu me encaixo nessa situação, e, a vida de ser mãe, dona de casa, esposa, profissional autônoma e ainda universitária não é nada fácil.

A faculdade é minha prioridade no âmbito profissional porque é dela que construirei a minha nova carreira. Portanto, a minha exigência pessoal para gerar bons resultados é alta, bem alta, o que vai de encontro ao modo de ver das outras pessoas do meu grupo. Trabalho em grupo é importante e contribui muito para a nossa formação profissional. Mas, quando no grupo nós temos algumas pessoas que não enxergam para si a faculdade com essa mesma importância e prioridade começa o caos. Trabalhos e mais trabalhos sendo pedido pelas professoras no fim do semestre, com alta exigência e depois de um ano inteiro levando um grupo prejudicado por esse desalinhamento entre as integrantes, chega o fim do semestre e o cansaço domina o corpo e a mente. Só quero férias e distância do zoom!

Tentando aliviar a pressão, fui junto de outras pessoas da turma pedir ao professor para dar somente uma prova valendo dez e abrir mão de dar trabalho em grupo porque estávamos muito cansados. Expliquei com detalhes toda as pressões do meu cotidiano e reafirmei o meu cansaço e por isso optar por fazer apenas prova e sem trabalho em grupo. O professor responde que não, pois, o trabalho faz parte da disciplina e, portanto, não dará apenas a prova. Você aceita, afinal de contas, a autoridade nesse espaço coletivo é do professor e não minha.

Tendo deixado claro que não atenderia o meu pedido, ele arremata sua fala com a seguinte expressão: “Nossa Carol, na boa, você é de longe a mais estressada da turma. Te falo como amigo.” E talvez ele não tenha percebido que foi extremamente machista nessa colocação.

Acreditando que ele não deva ter escutado nada do que disse anteriormente ao pedir só prova, eu o interrompo e repito que muito cansada. Falo para ele que “Não estou estressada. Estou cansada, muito cansada. Todos os trabalhos foram pedidos ao mesmo tempo pelos docentes, estou com problemas no grupo e ainda tem todas as outras atividades e responsabilidades para além da faculdade, portanto, não estou estressada, estou cansada.”

Mas, parece que o termo “cansaço” não foi escutado ou foi ignorado porque socialmente nós mulheres somos historicamente rotuladas por “estressadas”, – para mim isso é um novo rótulo antes nos chamavam de histéricas.

Quando reclamamos, questionamos, nos impomos e não aceitamos as ordens impostas pelos outros e reivindicamos mudanças em nome do nosso bem-estar somos sempre estereotipadas como estressadas.

A sociedade historicamente nos coloca numa posição de problemáticas, insatisfeitas, histéricas sempre que não aceitamos o que os outros querem nos impor, sempre que abrimos a boca para expressar as nossas insatisfações e reivindicar melhores condições de vida para nós.

Portanto, mulheres, NÃO CAIAM NESSA ARMADILHA. Não temam ser rotuladas! Não aceitem serem interditadas.

FALEM com todas as letras que o nosso sentimento é de CANSAÇO porque nós não aceitamos mais nos submeter as vontades impostas pela sociedade machista que nos quer belas, recatadas e do lar servido ao marido, aos filhos e ao lar. Não! Nós queremos e nos colocaremos em outras posições dentro da sociedade: no mercado de trabalho, na política, na universidade e em qualquer lugar que desejemos para as nossas vidas.

Deixem claro também que esse cansaço que sentimos é histórico, construído por um passado não muito distante que coloca sobre nós muito mais responsabilidades do que aos homens.

E para vocês homens, aprendam: mulheres estão CANSADAS e não estressadas!

Talvez estressados estejam vocês com a nossa atitude de estar onde queremos estar e exigindo condições de qualidade de vida e bem-estar para as nossas vidas também, não aceitando ficar limitadas no papel de assegurar boas condições de vida somente para vocês e essa sociedade machista em que vivemos.

Para as mulheres, pratiquem a sororidade e evitem agir como os homens rotulando outras mulheres como estressadas. Pensem antes de falar que talvez aquela outra mulher que você está julgando esteja passando por um turbilhão na vida dela e não tenha nenhum apoio. Ofereça sua ajuda em vez da sua crítica, combinado?

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