Conversas de Mãe

Mãe Imperfeita, essa sou eu.

Dor na coluna. Fim de semestre da faculdade. Trabalho tenso. Frio. Cabeça cheia de preocupações. Cansaço seria o meu sobrenome ideal.

E a filha próximo dos três anos começa a gritar, bate em você, não faz o que você pede, grita, grita e grita!

Você aguenta. Respira fundo. Dá um abraço nela e pede mais uma vez para ir pro box. Mais gritos e um NÃO sonoro bem no seu ouvido!

Chega! Você também grita. Choro. Mais gritos.

Você pega pelos braços e põe no quarto sentada na cama de castigo. Mais gritos. Você volta, conversa e abraça. Seguem para o box.

Ela diz que não gosta que você grite. Você diz o mesmo a ela. De repente, uma voz interna fala na sua cabeça: “Você é adulta. Não uma criança de 3 anos, Carol.” remorso, culpa e vergonha tomam conta de você. O banho termina. Você se enrola na toalha, está frio, mas a prioridade é vestir a menina, depois você.

Algumas horas se passam a sua dor na coluna aumenta, queima. Mas você ali vendo desenho juntas no sofá. Preparam a janta, você só quer encerrar esse dia e dormir. Mas antes tem que colocar a menina para dormir.

Ela quer que você cante alto, você está tão cansada e com dor que se deita no chão ao lado da cama da menina e só consegue murmurar a música. Outra sessão de gritos e mais gritos começa. Você perde aquele pingo de paciência que sobrou e grita com ela, o pai chega e acode a filha, mas não sem antes despejar uma chuva de lição de moral sobre o seu descontrole emocional, afinal de contas, a culpa é sua de estar sentindo dor, da menina estar gritando, ela sente sua falta e você precisa dar mais atenção a ela.

Você grita e aponta que perdeu a paciência, SIM!

A sua coluna queima, sua cabeça explode, você só quer silêncio e parar de sentir dor! Então, vai pro quarto e não consegue dormir. Porque o fim da tarde cheio de gritos, a gritaria no box, mais os gritos da noite e todos os seus defeitos que faz de você essa mãe imperfeita (e seu marido faz questão de lembrar) martelam na sua mente roubando o seu sono por completo.

Já viveu algo parecido?

Já gritou com sua filha também?

Já perdeu a paciência?

Eu já. Eu sou essa mãe imperfeita, que escolheu não abdicar do seu trabalho, da sua faculdade para apenas maternar. Sou essa mãe recriminada por bancar minhas escolhas e perder a paciência quando o cansaço e a crise na lombar insistem em aparecer juntos na minha vida.

Mas, quer saber? Admito meus defeitos e me livro de mais um peso: o de ser perfeita.

Eu amo a minha filha como ninguém consegue nem imaginar. Só eu sei o medo que tive de perde-lá na minha gestação de alto risco. Só eu sei como é difícil não abrir mão dos meus sonhos de carreira e saber que não me dedico exclusivamente a ela. Ninguém sabe. Mas todos julgam. Sabe por quê?

Porque quando a pessoa se ocupa de julgar o outro, ela fecha os olhos para os seus próprios defeitos. Quando se ocupa de apontar os erros alheios evita encarar os seus porque isso dói.

Então, sinto muito por cada grito, descontrole e impaciência. Apesar de todos os defeitos não me canso de buscar todo dia ser um pouco melhor para mim e por ela. Minhas dores mais profundas só quem conhece sou eu. Por isso, sigo adiante, aprendendo a lidar com minhas imperfeições e nunca desistindo de melhorar a cada dia.

Compartilho aqui algumas lições que venho aprendendo na minha maternidade:

  • Não engula os julgamentos alheios.
  • Não se sinta a pior mãe do mundo por sonhar e buscar seus sonhos, para além da maternidade.
  • Ninguém é perfeito. Todos temos nossos altos e baixos. O importante é reconhecermos e buscarmos melhorar a cada dia por nós e nossas crias.
  • Siga firme.
  • Você não é perfeita e nem aquele que lhe julga.

A maternidade é um processo diário de construção e reconstrução de quem somos e nossas crianças. Viva com intensidade e autenticidade. Doe todo o seu amor as suas crias e elas saberão que a mãe imperfeita é quem mais as ama nesse mundo.

Outro ponto muito importante disso é que você assumindo a sua imperfeição livrará a sua filha do peso de acreditar que deveria ser perfeita também. Isso é libertador (mas assunto para outro texto).

Até a próxima.

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