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Conversas de Mãe

Desfralde sem mistério.

Oi Gente,

Hoje quero compartilhar mais uma etapa que vivenciamos por aqui, o desfralde.

Confesso que era um dos temas que mais estudei desde os primeiros meses do puerpério. E na faculdade a perspectiva psicanalítica me trouxe novos conhecimentos e temores. Então, por algum tempo, adiei encarar essa fase, mas chega uma hora que não dá mais. E essa hora é a da criança (e não a minha de mãe).

A teoria psicanalítica freudiana entende uma das fases do desenvolvimento humano, a anal, como a responsável por grandes situações traumáticas no indivíduo provocado, geralmente, por um desfralde mediado de maneira imprópria. Alguns sintomas de que houve algum problema nessa fase e identifiquei em mim são: a dificuldade de fazer coco em viagens, prisão de ventre e necessidade de controle. Todos influenciam negativamente o meu bem-estar.

Pensando na responsabilidade que é mediar esse processo na criança eu temia fazer tudo errado e gerar na minha filha esses problemas também. Por isso, tentei adiar o quanto pude.

Começando a buscar informações confiáveis.

Li em diversos lugares na internet dizendo que a partir de um ano e meio se deve iniciar o processo. Nunca concordei com isso. Trocando esses sites nada científicos, escritos por mães comuns que ditam regras para o filho de todo mundo baseado em SUA experiência pessoal, e, adotando os estudos científicos e as orientações de especialistas como pediatras e neuropsicóloga comecei a aprender mais sobre esse processo.

As especialistas que acompanho orientam que não tem relação com a idade da criança, mas sim com os sinais psicológicos e fisiológicos do desenvolvimento que a criança apresenta. Então, caberia a mim aprender sobre esses sinais e observar em minha filha, para só então, iniciar o desfralde sem mistério.

Estudando comecei a reparar se ela pulava com os dois pés, se pulava com um só pé, se falava quando fazia xixi ou coco, se percebia a fralde cheia, se subia escada sozinha, se demonstrava desconforto com a fralda suja, enfim, são alguns sinais de preparação para ajudá-la a transitar por essa fase.

A logística do penico.

Pesquisamos sobre qual penico comprar, porque o redutor de assento não daria a ela a segurança de firmar os pés no chão e nem a autonomia de ir fazer o xixi e coco sozinha. Compramos um musical bem simples que se transforma em redutor e uma banqueta para quando ela crescer e estiver pronta para usar o vaso sanitário comum sentando-se sozinha.

Minha filha tem a rotina dividida entre a nossa casa e a da minha mãe. Moramos em uma casa com dois andares, logo, compramos três penicos: uma para a casa da minha mãe, um para o banheiro daqui do andar de baixo e outro para o andar de cima. Todos do mesmo modelo. Minha filha escolheu apenas cores diferentes e onde ficaria cada penico.

É importante ter consciência de que para a criança conhecer o seu próprio corpo a ponto de entender se dá ou não tempo de chegar ao penico é um grande desafio. Portanto, se você mora em uma casa com mais de um banheiro e em andares ou locais distantes, deixe um penico em cada, isso ajuda a criança a ter uma pressão menor sobre esse aprendizado: o de se segurar até chegar ao banheiro.

Tudo começa pela conversa.

Começamos a conversar sobre desfralde com a minha filha quando ela fez dois anos. Eu percebia que ela ainda não estava pronta fisiológica e psicologicamente, mas a conversa faz parte do processo. Então, falávamos sobre quando ela deixaria de usar fralda. Ela então começou a nomear quando sentia vontade de fazer coco, mas o xixi nada.

Após dois anos e meio via que ela compreendia bem o que era fazer coco e xixi. Se interessava em ver o meu coco. E começou a se animar com a ideia de ter penico. Agendamos a consulta com a pediatra para falarmos sobre o desfralde, sim foi uma consulta exclusiva para tratar sobre isso. E foi muito bom recomendo a todos os cuidadores que realizem com a pediatra de sua criança também para aprenderem e evitar estresse.

Algumas orientações eu não segui, como o quadro do incentivo, porque para mim não faz sentido utilizar essa técnica com algo tão natural, quanto fazer xixi e coco. Mas, há quem use e goste. É importante cada um seguir aquilo que cabe a sua família.

Fazendo o mais fácil primeiro.

Por aqui nós começamos com o desfralde do coco por duas razões: ela sabia identificar a vontade de expelir as fezes e se incomodava com a fralda suja e ter que ser limpa com lenço umedecido. Então, logo topou fazer o coco no penico. Foi bem tranquilo.

Por aqui, adotei a rotina de fazer coco e se limpar no banho. Portanto, ela sabe que após o coco irá tomar banho. Em uma tarde estávamos brincando no andar de baixo e ela sentiu vontade de fazer coco, mas quis ir no banheiro de cima porque é onde tomamos banho. Não deu tempo de subir as escadas. Saiu na fralda uma parte e o resto fez no penico. A carinha dela de desapontada com o insucesso de não ter segurado foi de cortar o coração.

Eu e meu marido explicamos que não havia problema. Isso, às vezes, acontecia mesmo com todo mundo. E que tudo bem. Dei banho nela e voltamos a brincar.

No dia seguinte, passou a ficar mais atenta e a correr para o banheiro mais próximo dela. Desde então, nunca mais escapou nenhum coco.

O desfralde diurno e noturno.

Passado uns dois meses começamos a treinar o desfralde para o xixi. Tiramos a fralda e a deixamos de calcinha. E sempre conversando que se desse o tempo e ela não tivesse tido vontade de fazer xixi eu a chamaria e ela iria ao penico. O tempo de intervalo era de 45min. No começou relutava um pouco para parar de brincar, algo totalmente natural, mas, a gente conversou e explicou que sim, sabíamos que era chato ter que parar mas fazia parte do treino.

Poucas vezes escapou o xixi na roupa. E em menos de um mês de treino ela já estava sem fralda durante o dia. Vale ressaltar que nem aqui em casa e nem na minha mãe nenhum de nós nunca brigamos por causa dos escapes. Sem grito. Sem ofensas. Sem nenhum tipo de violência. A resposta padrão sempre foi “Tudo bem. Você está aprendendo” e incentivámos para que na próxima ela percebesse melhor quando “a barriguinha” quisesse fazer xixi.

Quase dois meses se passaram e ela pediu para treinar dormir sem fralda. Eu expliquei que o cérebro dela ainda precisava aprender a não fazer xixi quando fosse noite, que ele sabia que dormindo não faz xixi, mas se durante a noite acordasse talvez ele se esquecesse e fizesse na cama. Não teria problema. Estávamos treinando e podia acontecer.

Depois de explicar bem eu perguntei se ela queria fazer o teste. Ela respondeu que sim. Então, começamos a colocá-la para dormir sem fralda. E seguimos com sucesso sem escapes noturnos.

Sabemos que é um processo e talvez ocorra um escape na cama. Tudo bem, faz parte do processo.

Resumo da história.

Após os dois anos, começamos a conversar em casa sobre desfralde. Estudei referências científicas sobre o assunto. Escutei a experiência da minha mãe com o processo. Combinamos de observar os sinais da minha filha, meu pai que é fisioterapeuta começou a brincar com ela com exercícios que ajudaram no controle dos esfíncteres, acordamos o nosso discurso sobre possíveis escapes e sempre falamos sobre coco e xixi sem nojo e nem tabu (são excrementos produzidos pela criança, para ela isso vale ouro, nós adultos somos quem colocamos o peso de ter nojo sobre algo natural do nosso corpo). Em quatro meses, o processo de desfralde sem mistério tinha sido realizado com sucesso, com afeto, com paciência e, principalmente, com respeito ao tempo dela e não ao nosso.

Conheço famílias que fazem desse processo uma etapa tão estressante para a criança e para todos do núcleo familiar que fico entristecida porque não precisa ser assim.

Aprender com especialistas da área, ler de fontes científicas, estudar, conversar e envolver a criança nesse processo é o caminho mais amoroso e respeitoso que você pode seguir e oferecer as suas crianças.

Entendam, não existe tirar da fralda. Existe deixar a fralda. O protagonismo desse processo não é nosso, dos cuidadores. É da própria criança que aprende a conhecer os sinais de seu corpo e a utilizar o método adotado pela sociedade: o uso do banheiro, deixando assim de querer usar fralda.

Respeite. Converse. Estude. Acolha. Espere.

Que você por aí possa também ter boas experiências com o desfralde sem mistério.

 

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