sexo após o parto
Conversas a dois

Sexo pós-parto: quais as dificuldades?

Imaginem a seguinte situação:

Um casal está junto há mais de cinco anos, cada um com seu trabalho, ambos com 30 e poucos anos, apaixonados. A semana é corrida, ele trabalha mais de 12h/dia e ela em torno de 10h na empresa, mas em casa trabalha mais umas 10h por semana limpando a casa, lavando roupa e organizando a bagunça do dia-a-dia. Ele é responsável por fazer o mercado, colocar o carro para lavar e cuidar das plantas. Aparentemente há uma desigualdade na divisão das tarefas domésticas, mas eles conseguem lidar bem com isso. Uma vez por mês eles viajam para um hotel confortável e fazem uma mini lua-de-mel. Sábado nutrem o ritual da noite-a-dois, saem para jantar, pedem uma comida japonesa em casa ou degustam de um bom vinho. Há algumas situações em que divergem e até mesmo tem pequenas discussões. Mas, logo conversam e resolvem, geralmente, terminando a conciliação com uma boa noite de sexo prazeroso para ambos.

O casal acima não tem nada de especial, possivelmente você poderia ser esse casal ou conhece algum parecido. Eles são o típico casal jovem, apaixonado, profissionais independentes, gestores do próprio tempo, onde encaixam perfeitamente as obrigações da vida (trabalho e cuidado da casa) com os prazeres (viagens e jantares).

Em determinado momento eles decidem ter um bebe. Ela um pouco insegura porque teme ter que abandonar a sua carreira para ter que cuidar do bebe. Ele inseguro porque receia os gastos futuros e no que poderia impactar na vida dos dois. Apesar dos medos, eles seguem com o desejo e ela engravida. A gestação avança e as dores nas costas, as noites mal dormidas, o inchaço das pernas tudo isso começa a pesar e ela já não consegue cuidar da casa como antes. Então, pede a ele para assumir algumas tarefas. Ele diz que sim, mas, na prática, não faz quase nada. Acaba que a casa já não fica mais tão bem limpa e cuidada como antes. E isso começa a afetar o humor dela, que gosta da casa bem organizada e limpa. O tempo passa e a gravidez entra na reta final. As dores nas pernas, nas costas e as noites mal dormidas culminam diretamente no humor dela. O sexo passa a ficar escasso. Nasce o bebe e é como se um tornado passasse na vida do casal.

No hospital ela já não consegue aprender o jeito certo de oferecer o seio para o bebe (a pega) e machuca as mamas. Mas, por insistência dos médicos que defendem o aleitamento materno como o melhor alimento para o bebe e também pelas experiências das amigas, ela insiste na amamentação exclusiva no peito. Vão para a casa. O bebe não dorme mais do que 90min. Ela está exausta. Dói todo o corpo, ela fez cesárea. Tem que ter cuidado com os pontos da cirurgia. Cada vez que amamenta sente cólicas fortes. Os seios fissuram a cada mamada. Ela está de licença maternidade. Ele tem somente os 5 dias de licença paterna. Tempo este que voa!

Uma semana passou desde que o bebe nasceu. Privação de sono é algo rotineiro agora. Choro do bebe de fome. Choro da mãe de dor.

O pai precisa retornar ao trabalho, então sugere que é melhor dormir no quarto de hóspede para que esteja bem descansado pela manhã. Afinal de contas, ele tem que ir trabalhar. Ela assume os cuidados com o bebe durante o dia inteiro e agora também na madrugada. A sogra e a mãe dela vem visitar o bebe e dizem que é normal essa dor nos seios, que ela precisa parar de reclamar. Sugerem que ela tire o peito então e dê mamadeira mesmo, fórmula porque assim o bebe para de chorar. Mas, ela rejeita a ideia, por acreditar que o melhor é o aleitamento materno. A casa fica um caos! Fralda, chupeta, paninhos tudo espalhado pela casa toda.

Dois meses se passaram e o bebe começa a apresentar cólicas. Como o mais comum, as dores começam pelo início da noite e duram em torno de 3 a 4h de choro intenso. E é justamente nessa hora que ele chega a casa do trabalho. Começam as discussões: ele quer chegar e poder descansar. Ela não vê a hora dele chegar e poder ficar com o bebe para ela descansar entre uma mamada e outra. Desejos incompatíveis.

A quarentena terminou e ele começa a procurá-la para transarem. Ela nega. Ele não entende.

Essa situação descrita anteriormente também é muito mais comum do que pensamos. História que vi muitas amigas passarem. História que leio nos grupos de mães em que participo. Para ajudar a esses homens a entenderem o motivo dessa falta de desejo sexual das mulheres, vou listar abaixo somente as principais tarefas que são inerentes a nova rotina de toda recém-mãe.

O que, comumente, faz uma mulher recém-mãe:

  1. Alimentar o bebe – no peito a cada 2 ou 3h, na mamadeira a cada 3h – durante o dia, a noite e a madrugada inteira.

  2. Colocar para arrotar após a mamada – embalando no colo, em pé, durante 15min após cada mamada.

  3. Dar banho no bebe.

  4. Trocar fralda do bebe – de 6 a 15x por dia.

  5. Colocar o bebe para dormir – no colo, andando e embalando durante 15 a 40min mais de 4x por dia.

  6. Lavar as roupas do bebe.

  7. Passar as roupas do bebe.

  8. Cuidar da cólica do bebe.

  9. Agendar pediatra do bebe – todo mês.

  10. Levar o bebe ao pediatra – todo mês.

  11. Agendar as vacinas do bebe – todo mês no primeiro ano de vida.

  12. Levar o bebe para tomar as vacinas – todo mês no primeiro ano de vida.

  13. Cuidar do bebe e das possíveis reações que surgem após a vacina – febre, dor, irritabilidade são os mais comuns.

  14. Vigiar o bebe – ele pode se engasgar dormindo, portanto, nem quando ele dorme a mãe descansa por completo.

  15. Continuar cuidado da casa – varrer, tirar pó, passar pano, retirar o lixo.

  16. Lavar as roupas da família.

  17. Passar as roupas.

  18. Cozinhar.

  19. Lavar louça

A lista citada é a básica para quase toda família. Imaginem que existem algumas que tem pet ou outros filhos, a lista só aumenta.

Agora vamos analisar a lista de tarefas que ele, o pai, passa a ter após a chegada do bebe:

  1. Trabalhar.

  2. Cuidar das plantas.

  3. Lavar o carro.

  4. Dar uma olhada no bebe para a mãe tomar um banho, comer ou tirar uma soneca – quando chega do trabalho (em torno de 30min) e no fim de semana.

Bem diferente a lista, não é mesmo? Pois então, essa foi uma ilustração simples do que muitas mulheres encaram sozinhas no casamento ao ter um bebe.

Ainda exigir que entre na lista daqueles 19 itens o “20. Transar” sem equilibrar a listinha dos 4 itens dele é pedir demais. No mínimo, falta bom senso.

Como que uma mulher exausta, afundada nos cuidados com o bebe, com a casa, com a família que mal tem tempo de tomar um banho tranquilo terá vontade de transar!? Essa mulher quer DORMIR, DESCANSAR, SER CUIDADA também.

Desse modo, sugiro que vocês, o casal, assuma igualitariamente os cuidados com o bebe. Conversem.

Quanto mais cansada, estressada, exausta essa mulher se sentir, mais chance de adoecer psicologicamente ela terá. Além de que isso refletirá no comportamento do bebe. A díade mãe-bebe é uma relação muito forte e intensa. Não é à toa que aos nove meses o bebe passa pela crise da separação, quando se percebe um ser separado de sua mãe.

Uma mulher que se sente cuidada, amparada, amada e segura é uma mãe que transmitirá tudo isso ao bebe. Este, por sua vez, se sentirá assim também, dormindo melhor, chorando menos. Para isso, você, o pai, precisa assumir o papel daquele que cuida-da-mãe. Assim, ela, a mãe, poderá assumir o papel de quem cuida-do-bebe. E o bebe se sentirá seguro, amado, amparado e tranquilo.

O sexo então passará a ser viável para ela. O desejo terá espaço para acontecer.

Os desafios inerentes a chegada de um bebe são tremendos. A mãe não conseguirá dar conta de tudo sozinha (e nem deve, afinal, o bebe é uma produção do casal). O papel do pai na sedimentação desse novo arranjo familiar é muito maior do que costuma ser dito pelo senso comum. Portanto, COMPARTILHEM OS CUIDADOS COM O BEBE.

Pai pode dar banho, dar mamadeira, trocar fralda, embalar, colocar para dormir, fazer arrotar, lavar as roupinhas. Limpar a casa, fazer comida ou se não quiser, contrate uma faxineira pelo menos 1x na semana para que a sua mulher não precise assumir a limpeza pesada da casa.

Mãe não é a única responsável pelos cuidados com o bebe.

O bebe precisa se sentir amado, protegido, seguro, amparado e tranquilo. E isto só será possível se os cuidadores, geralmente pai e mãe, estiverem bem na relação a dois.

O sexo para a mulher começa na cabeça, não é somente desejo físico. Se a mulher estiver exausta ou emocionalmente fragilizada/estressada o tesão desaparece. Não se esqueçam disso.

Finalizo dizendo para você,  mulher, pare de se culpar pela falta de libido após o parto. Pare de se culpar por não estar dedicando tempo para cuidar da sua aparência. Você está sendo sugada pelos cuidados diários e intermináveis com o seu bebe. Talvez seu marido nem tenha ideia do quanto você faz, converse, explique, diga como se sente e do que precisa dele. E para você, homem, faça mais pelo seu bebe, pela sua esposa, pela casa de vocês e exija menos dela. Cobre menos dela. Critique menos ela. Seja mais parceiro, amigo e depois amante dela.

Espero que esse texto possa ajudar algum casal, recém-pais de um bebe.

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